31 de março de 2020

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Escritores de livros para crianças e jovens #2

Ruth Rocha

Uma das mais conhecidas escritoras brasileiras de livros para crianças e jovens, Ruth Rocha nasceu em São Paulo, em 1931, e começou a se apaixonar pela literatura ao ouvir as histórias contadas pela mãe e os contos de fada narrados pelo avô e, mais tarde, ao ler clássicos de Monteiro Lobato.

Seu primeiro livro, Palavras, muitas palavras, foi publicado em 1976. De lá para cá, já são mais de duzentas obras publicadas, entre as quais se destaca Marcelo, marmelo, martelo, seu trabalho mais famoso.

O estilo de escrita de Ruth Rocha combina bom humor e crítica social. Seus livros estimulam as crianças e os jovens a pensarem, sem lições de moral, e a inserem numa lista de escritores que respeitam a inteligência e a capacidade desse público (na qual incluo também Wander Piroli e Bartolomeu Campos de Queirós, de quem já falei aqui e aqui).

Os três livros a seguir, portanto, são apenas uma amostra da vasta obra de Ruth Rocha, que pode e deve ser conhecida e admirada.

1. O reizinho mandão

Mas o reizinho não queria saber de nada.
Era só um conselheiro qualquer
abrir a boca para dar um conselho
e ele ficava vermelhinho de raiva,
batia o pé no chão e gritava de maus modos:
— Cala a boca! Eu é que sou o rei.
Eu é que mando! (p. 12).

Publicado pela primeira vez em 1978, pela editora Pioneira, O reizinho mandão já está em sua 27ª edição e deu origem a uma série de livros de Ruth Rocha (composta por obras como O rei que não sabia de nada, Este admirável mundo louco e Uma história de rabos presos). A edição que tenho aqui, a 23ª (Quinteto Editorial, 1985), foi ilustrada por Walter Ono, cujos desenhos não me encantam muito: não têm cor, talvez ao estilo da época.

Conheci esse livro quando lecionei para uma turma do 4° ano do ensino fundamental e, relendo-o agora, enxerguei a história com outros olhos. Reconheci o reizinho mandão aqui e agora, na nossa vida real, governando nosso país, embora a autora provavelmente tenha se inspirado nos presidentes militares.

O enredo é o seguinte: um príncipe mimado e mal-educado assume o trono com a morte do pai — este sim descrito como um homem bondoso e justo.

Como este rei era rei de história,
era um rei muito bonzinho, muito justo…
E tudo o que ele fazia era pro bem do povo (p. 7).

O que podemos esperar de um governante com histórico de má-criação? O príncipe mimado, ao se tornar rei, passa a dar ordens e a criar leis para interferir na vida das pessoas, recusando-se a aceitar o que dizem os conselheiros. Afinal, ele acha que pode mandar em tudo.

De tanto ele ordenar que as pessoas calem a boca — o que seu papagaio repete —, elas calam de verdade e desaprendem a falar, e os conselheiros perdem a habilidade de dar conselhos.

O reizinho mandão gosta do resultado: finalmente pode falar à vontade. Porém logo começa a achar chato todo aquele silêncio. É aí que resolve ir a outro reino, pedir a ajuda de um famoso sábio.

Depois de dar uma bronca no reizinho, o sábio lança um desafio: bater de porta em porta e encontrar uma criança no reino que ainda saiba falar. Só isso libertará as pessoas do lugar.

O livro é todo escrito em versos e no estilo de contação de histórias, como o narrador anuncia no início. É cheio de humor e de reflexões sobre os efeitos do poder quando entregue a pessoas sem capacidade de lidar com ele. E foge do clichê do protagonista bonzinho.

2. Este admirável mundo louco

E como é que eles se entendem?
E quem foi que disse que eles se entendem?
Quer dizer, tem uns que entendem os outros, mas não é todo mundo, não (p. 12).

Este admirável mundo louco é uma das histórias que compõem o livro de mesmo título, lançado em 1986 pela editora Salamandra (as outras duas são: Uns pelos outros e Quando a escola é de vidro).

Falo aqui justamente da primeira edição, que também contou com ilustrações de Walter Ono — ilustrações estas bem parecidas com as do primeiro livro mencionado, com um única diferença: agora o fundo ganhou um amarelo chamativo.

Na história, em um manuscrito encontrado entre os pertences do professor Sintomático de Aquino, um suposto estudante de fláritis da Universidade de Fluetergues relata a vida na Terra.

Ele descreve a aparência dos humanos (que chama de freguetes) e seu comportamento estranho e conclui, ao final, que não entendeu quase nada do planeta, do vaivém dos freguetes, de suas guerras, de sua insistência em construir coisas que ninguém usa e que vão parar em um lugar onde se juntam porcarias.

Parece que eles vivem dentro de outras caixas. Algumas destas caixas são grandes, outras são pequenas.
Nem sempre moram mais freguetes nas caixas maiores.
Às vezes acontece o contrário: nas caixas grandes moram pouquinhos freguetes e nas caixas pequenininhas mora um monte deles (p. 9-10).

Por isso, o extraterrestre recomenda uma nova visita ao planeta “por um grupo especializado em planetas de alto risco” (p. 14).

O texto nos leva a muitas reflexões sobre o comportamento humano. É interessante a ideia de nos vermos pelos olhos de um sujeito externo. Enquanto lia, eu me perguntava: o que aquele alienígena pensaria de nós neste momento?

3. As coisas que a gente fala

Sejam palavras bonitas
ou sejam palavras feias;
sejam mentira ou verdade
ou sejam verdades meias;
são sempre muito importantes
as coisas que a gente fala.
Aliás, também têm força
as coisas que a gente cala.
Às vezes, importam mais
que as coisas que a gente fez… (p. 21).

As coisas que a gente fala foi lançado em 1981 pela editora Rocco. A edição que tenho em mãos foi publicada pela editora Salamandra em 2005 e ilustrada por Mariana Massarani.

Nesse livro, Ruth Rocha nos mostra, em versos, o perigo que representam as coisas que a gente fala.

As palavras se transformam na viagem dos lábios aos ouvidos e se espalham tão rapidamente que é impossível recolhê-las por completo. É dessa forma que as mentiras se tornam verdades.

Mas às vezes as palavras
vão entrando nas cabeças,
vão dando voltas e voltas,
fazendo reviravoltas
e vão dando piruetas (p. 4).

Não poderia haver um assunto mais atual do que esse. Cabe perfeitamente em nossa era de fake news. Hoje, aquilo que a gente fala continua a impactar a vida de outras pessoas, porém agora não usamos apenas a boca como instrumento para compartilhar as palavras, que se difundem com mais rapidez e facilidade. É ainda mais difícil desdizer.

Fica então o aviso:

Por isso, quando falamos,
temos de tomar cuidado.
Que as coisas que a gente fala
vão voando, vão voando,
e ficam por todo lado.
E até mesmo modificam
o que era nosso recado (p. 7).


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