"10" Post(s) encontrado(s) na categoria: Cartas

30 de maio de 2020

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Cartas para Marilu (n° 12)

Sábado, 13 de julho de 1985. Marilu, Depois do desastre que foi a conversa com seu pai, encontrei Teresa e disse que queria participar de suas reuniões. Não importava contra quem eles lutavam; eu também queria lutar. A luta por liberdade também me tinha feito sair de casa, embora eu não tenha refletido sobre isso antes de tomar a decisão. Saí do hotel diretamente para a igreja ao lado, onde encontrei dezenas de homens e mulheres que alternavam sorrisos e uma expressão de tristeza. Teresa me explicou que seus companheiros tinham esperança de ver o país livre outra vez, mas o clima de repressão e o medo por vezes ofuscavam seus pensamentos positivos. Um homem subiu ao altar e reafirmou a importância da resistência. Eles trilhavam o caminho certo e ninguém poderia esmorecer naquele momento. Relembrou os companheiros que não se encontravam mais ali, companheiros cujo paradeiro só podiam imaginar, […]

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05 de maio de 2020

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Cartas para Marilu (n° 11)

Quinta-feira, 11 de julho de 1985. Querida Marilu, Havia se passado bastante tempo desde o início do trabalho no hotel. Certa noite, obrigaram-me a ficar até tarde, pois haviam hóspedes importantes por chegar, e o gerente me mandou faxinar cada um dos quartos desocupados. Nada poderia estar fora do lugar, ele disse, nem um grão de poeira deveria restar nos aposentos das tais autoridades. Quem eram os hóspedes tão exigentes ninguém me informou, e eu também não questionei. Esse não era o tipo de gente que me interessava. Na verdade, quase nada despertava meu interesse naquela época. Quando enfim deixei o hotel, vi um grupo de pessoas saindo da igreja ao lado. Não tinham cara de reza, mas como eu poderia ter certeza se também já não rezava? Movimentaram-se com rapidez e em poucos segundos sumiram. Perguntei-me quem eram elas, embora não tenha perdido tanto tempo buscando a resposta. Logo […]

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03 de março de 2020

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Cartas para Marilu (n° 10)

Terça-feira, 9 de julho de 1985. Minha filha querida, Como mencionei na última carta, quando saí de casa, encontrei emprego num hotel. Você passou na frente dele muitas vezes, com certeza. Eu já havia passado também, mas nunca tinha entrado sequer até a recepção. Por isso, não poderia adivinhar que, após aquela pequena porta, escondiam-se tantos quartos, salas, saguões, varandas, banheiros e um restaurante e que tantas pessoas se hospedavam ali dia após dia. Mesmo com toda essa extensão, o hotel tinha tão poucos funcionários que eu me dividia para realizar o trabalho de pelo menos três pessoas. Eu, porém, não reclamava. Era esse emprego que me mantinha. Não só porque o salário provia os meios materiais para minha sobrevivência, mas porque o cansaço do corpo me impedia de pensar.

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03 de dezembro de 2019

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Cartas para Marilu (n° 9)

Domingo, 7 de julho de 1985. Filha, Quando saí de casa naquele dia, bati à porta da Vera. Seus olhos escuros, profundos e curiosos fixos em mim, me interrogando, só não eram mais indiscretos que o outro par de olhos, que me encarava com uma impaciência costumeira. Estes olhos me obrigavam a declarar, de uma vez, o que fazia ali às duas horas da manhã, não porque o dono deles quisesse saber realmente, mas porque queria voltar a se deitar.

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16 de novembro de 2019

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Cartas para Marilu (n° 8)

Sexta-feira, 5 de julho de 1985. Marilu, Não sei como recebeu minha última carta, mas suponho que ler aquelas palavras tenha sido doloroso, pois foi inevitável transferir minha dor para o papel ao traçar cada letra. Acredite em mim, por favor, minha filha: não era meu objetivo machucar você.

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26 de outubro de 2019

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Cartas para Marilu (n° 7)

Quarta-feira, 3 de julho de 1985. Minha filha, É provável que tenha escutado sobre minha saída de casa, mas não sei de que forma a história chegou aos seus ouvidos. Os fatos costumam ter versões diferentes a depender do narrador, você deve saber, e não necessariamente porque alguém esteja mentindo. Apenas porque cada um tem a própria forma de enxergar a situação.

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20 de agosto de 2019

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Cartas para Marilu (n° 6)

Segunda-feira, 1° de julho de 1985. Minha querida filha, No dia em que enviei a última carta, a observei caminhando para a escola, dessa vez sozinha, com uma expressão séria e um olhar difícil de interpretar. Parecia que seus olhos contemplavam algo que não se encontrava ali, algo que eu não via. O vento bagunçou seus cabelos, e você tentou reordená-los com uma mão, enquanto a outra segurava uma pequena pilha de livros, que caíram e se espalharam pelo chão. Por um instante fantasiei, presunçosa, que sua aparente tristeza tivesse relação com minhas cartas, com nossa separação, com a falta que faço em sua vida. Quis me aproximar, ajudá-la a recolher os livros, ajudá-la a carregar a preocupação que parecia mais pesada que suas forças de menina. Porém, no minuto seguinte, percebi a tolice da ideia. O medo dominou meu corpo, me impedindo de dar um único passo. Não sabia […]

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28 de dezembro de 2018

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Cartas para Marilu (n° 5)

Por Eriane Dantas

Sábado, 29 de junho de 1985. Marilu, Fiquei admirada com a notícia do início de seu namoro com o filho do amigo de seu pai. Como minha pequena menina poderia estar pensando em amor? Mas é hora de enxergar a realidade: como eu disse na primeira carta, você se transformou em uma bela moça. Aquela garotinha que caminhava para lá e para cá abraçada a um urso de pelúcia não existe mais, a não ser na minha memória, embora não pareça fazer tanto tempo que ela se foi. Por falar nisso, você se lembra do Dudu? Era o urso de pelúcia mais feio que já se tinha visto, mas você mesma o havia escolhido ao avistá-lo nas mãos de um vendedor de rua. Dudu logo se tornou seu melhor amigo. Dormia ao seu lado toda noite e a ajudou a enfrentar o medo do escuro. Era o único que a […]

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26 de novembro de 2018

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Cartas para Marilu (n° 4)

Por Eriane Dantas

Quinta-feira, 27 de junho de 1985. Minha amada Marilu, Relutante, Vera contou que é sua madrasta a pessoa em quem você mais confia, mais que em seu pai, porque ela ouve suas confidências e dá em troca não apenas conselhos, mas também compreensão e apoio. É como uma irmã mais velha: sabe escutar e entender e, por outro lado, repreender se vir algo errado em seu comportamento. Consegue manobrar as regras de seu pai e o tem tornado mais flexível. Não posso mentir. Ouvir isso me deixou ao mesmo tempo irritada e deprimida. Era eu quem deveria estar aí, ouvindo seus desabafos e orientando sua caminhada. Era eu quem deveria ter acompanhado suas maiores descobertas, seus sorrisos mais alegres e até seus momentos de tristeza. Era eu quem deveria receber seus abraços todo dia e ter conquistado o título de sua melhor amiga.

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29 de outubro de 2018

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Cartas para Marilu (n° 3)

Por Eriane Dantas

Terça-feira, 25 de junho de 1985. Filha, Ontem pensei em seu pai. Todo ano, recordo essa data e volto ao dia em que você nasceu. É como se estivesse ouvindo Antônio dizer agora, com aquele sorriso tímido, que você poderia ter esperado mais quatro dias para vir ao mundo e, em seguida, reconhecer que aquele era o melhor presente de aniversário que ele poderia receber. Imagino que ele tenha mencionado isso no jantar de domingo, tentando esconder as lágrimas, tão acanhadas quanto o sorriso. Consigo até ver a expressão de orgulho de Antônio por você ter escolhido comemorar seu aniversário mais importante junto com o dele.

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