"10" Post(s) encontrado(s) na categoria: Crônicas

20 de julho de 2021

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Amizade não solicitada

Por Eriane Dantas

Sempre tive reservas quanto ao termo “amigo(a)”. Não concedia a todo mundo o título, ainda mais precedido de um adjetivo. Talvez por um trauma de infância. Ou por um pressentimento: amizade é relação rara, difícil de cultivar. Não pode ser solicitada (ou confirmada) clicando-se em um botão. Amizade se constrói pouco a pouco, com a ajuda e o empenho das duas partes. Se a parede é erguida toda de um lado e do outro, só pela metade, o prédio ficará torto e corre o risco de tombar. Depois da queda, é mais trabalhoso levantá-lo novamente. É uma coisa curiosa. Duas pessoas se encontram por acaso. Mesmo não partilhando a genealogia e não tendo obrigação de ficar, resolvem entrar e permanecer uma na vida da outra. Fazem isso apesar de suas diferenças, das falhas que cada uma delas tem.

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17 de junho de 2021

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Pessoa = pessoas

Por Eriane Dantas

Ouvindo o Gonzaguinha pela milésima vez, refleti de novo sobre a letra da música. Meu coração explode quando ele canta: “é tão bonito quando a gente entende que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá”. Emocionada, ponho-me a pensar nas gentes que participaram da minha trajetória, que contribuíram para a formação do meu eu. Quantas histórias se entrelaçaram à minha! No dia a dia, temos uma sensação de independência, somos adultos afinal, as nossas conquistas são resultado do nosso esforço, da nossa inteligência ou da nossa sorte. Na realidade, não somos tão autossuficientes. Tanta história rolou antes da nossa chegada à Terra, tanta gente lutou, sofreu e morreu para que o mundo fosse como o vemos hoje (não que seja o ideal; poderia ser pior). No campo particular, até nos tornarmos donos do nosso próprio nariz, outros seres humanos nos seguraram, nos guiaram, fizeram as atividades […]

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01 de junho de 2021

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Sem esmalte e de calcinha

Por Eriane Dantas

Olha as minhas unhas. Nunca mais pintei. Vontade de botar um esmalte vermelho. Ah, pintar pra quê? Não saio de casa há um ano. As pessoas me veem dos ombros pra cima. Posso até aparecer só de blusa e calcinha. Não, nunca fiz isso. Fique tranquilo (nem me imagine só de roupa íntima se me vir por aí em lives ou reuniões). Por falar em lives, a quantas você assistiu desde o ano passado? E de quantas reuniões online participou? Já notou que, nas reuniões, as pessoas foram adquirindo o hábito de não ligar mais as câmeras? Não vemos o rosto de ninguém, ouvimos apenas a voz. Vai ver que não querem sequer vestir a blusa. É constrangedor conversar com um quadrado com uma ou duas letras. É como uma teleconferência. E eu fico me perguntando: quando retornarmos ao trabalho presencial, compareceremos às reuniões com uma tarja na cara, onde […]

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25 de maio de 2021

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É proibido não amar os clássicos

Por Eriane Dantas

Não me apaixonei por Mrs Dalloway, de Virginia Woolf, ou por A hora da estrela, de Clarice Lispector. Abandonei A cidade e as serras, de Eça de Queiroz, e O processo, de Franz Kafka. Se você continua aqui, não me julgou mal por meu primeiro parágrafo. Mas diz a verdade: o que você está pensando de mim aí? Já percebeu que, se alguém insere os nomes desses autores e dessas autoras e seus livros numa afirmação desfavorável, o seu interlocutor quase sempre torce o nariz? É porque eles fazem parte de uma categoria chamada “clássicos”. Não sei você. Eu logo imagino algo intocável toda vez que escuto a palavra “clássico”. Para tirar a dúvida, fui buscar o significado no dicionário: Diz-se da obra ou do autor que é de estilo impecável e constitui modelo digno de admiração. Que constitui modelo em belas-artes. Que obedece a certo padrão de técnica ou […]

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11 de maio de 2021

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Padecer no paraíso

Por Eriane Dantas

Ser mãe é padecer no paraíso — dizem as mães com sorrisos nos lábios. Acho esse ditado um tanto infeliz, além de ineficaz quando se trata de atrair novas candidatas à maternidade. Aliás, nunca compreendi a necessidade que têm as mães de ver todas mulheres do mundo vivendo essa experiência. Se uma mulher confessar, diante de um grupo de mães, que não planeja ter filhos, vai escutar de 95% delas a seguinte resposta: “Ah, mas você tem que ter pelo menos um”. Pode testar! Quando eu ouvia esse tipo de afirmação, revirava os olhos em pensamento. Primeiramente, porque qualquer frase que comece com “você tem que” não pode terminar bem. Em segundo lugar, se nem eu tenho certeza sobre as melhores escolhas para mim (eu, que vivo em mim há décadas), como outra pessoa terá?

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29 de abril de 2021

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Outra vida

Por Eriane Dantas

Durante muito tempo tive medo de aparecer: poucas palavras ditas, nada de fotos, nada de vídeos, nada de exposição da intimidade e dos sentimentos diante de muita gente. Uma postagem como esta então seria impensável poucos anos atrás. E, ao mesmo tempo que desejava conquistar outros leitores e leitoras além da minha mãe, receava exibir os meus escritos. Estou falando disso hoje aqui porque, à véspera de completar 12.419 dias na Terra, orgulho-me de ter matado parte desse monstro em mim. Para isso, além das parcerias que fiz nos últimos anos, da terapia, da relação com esse pequeno ser ao meu lado na foto, concorreram o meu sonho de escrever, o blog e a entrega a desafios no meu trabalho (e até encontros infelizes por lá).

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13 de abril de 2021

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Não seja apenas feliz

Esse menino cheio de expressões, cheio de estilo, veio ao mundo há exatos 24 meses, antes do nascer do sol. É engraçado. O nosso primeiro encontro foi também a nossa primeira separação. Ele chegou reclamando, mostrando suas vontades. Seu choro ocupou o espaço e foi interrompido assim que nos aproximamos, como se ele quisesse ouvir o que eu tinha a dizer. Eu nada disse. Só senti sua pele na minha, a sensação de ver de perto um rosto que a tecnologia havia nos antecipado. Era a minha primeira vez ali também, numa sala com tanta luz, com tanta gente ao redor, com tanta volta no estômago. Sua chegada mudou a nossa vida, a rotina da casa, fazendo-nos até mudar de casa. Já se passaram dois anos e, embora pareça que foi ontem, sinto como se o Joaquim estivesse conosco desde sempre. Incorporou-se à família de forma tão natural, que não […]

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25 de novembro de 2020

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O giz vermelho e a insatisfação permanente

Por Eriane Dantas

‘Como seria bom se eu tivesse um ioiô!’. Esse é um dos pensamentos de Sara, a personagem principal do livro infantil O giz vermelho, de Iris van der Heide e Marije Tolman (Martins Fontes, 2006). Toda vez que leio essa história me pego em uma reflexão: não estaríamos nós em uma insatisfação permanente? Eu digo nós porque posso me incluir nesse grupo que, vez ou outra, olha para os objetivos alcançados e, como Raul Seixas naquela canção*, se pergunta: “E daí?”. Sara inicia a narrativa com um giz vermelho, deseja fazer desenhos no chão com ele, porém é desencorajada pelo piso irregular. Ela então encontra um menino brincando com bolas de gude, se interessa pelo brinquedo e propõe uma troca. Assim a menina percorre todo o livro, reparando que o objeto em suas mãos não tem a graça que ela imaginava e cobiçando o brinquedo de outra criança.

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10 de novembro de 2020

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A TV e eu

Por Eriane Dantas

Fui criada diante da TV, vendo desde O fantástico mundo de Bob até a banheira do Gugu (e uma porção de outros programas que hoje nos causam espanto). Naquela época, nem sonhávamos com Netflix e redes sociais; não tínhamos um aparelho de videocassete em casa; minha família não tinha condições de encher estantes com livros. Por falar em livros, além dos didáticos, lembro-me de três lá em casa: Coração de boneca, de Ilka Brunilde Laurito; Os Grandes Líderes: Juscelino, de Geraldo Mayrinck; e Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída, de Kai Hermann e Horst Rieck (que minha irmã e eu encontramos na rua e que, pelo tema, eu nem cheguei a ler). Então, o mundo entrava pelos olhos e pelos ouvidos, com imagens e sons, naquela caixa que tinha o poder de reunir a família na sala. A atração principal para mim eram as telenovelas, em especial as […]

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17 de outubro de 2020

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Meu ser piauiense

Por Eriane Dantas

Ser piauiense é estranhar com freqüência a pecha da pobreza, do calor insuportável, do imenso curral, do rústico corredor de passagem; é ter que ouvir aqueles de ‘fora’ a perguntar: como se fala, o que se faz, quem é o conhecido de lá’ (Rabelo, 2008, p. 14, sic). “Você conhece o Pedro?” — alguém questionou certa vez, ao saber que nasci e morei na capital do Piauí por quase doze anos. Eu respondi que não, mas por dentro minha resposta não foi tão calma assim. Que diabo de pergunta era aquela? Como poderia conhecer um ser humano, identificado apenas como Pedro, em uma cidade com milhares de habitantes? Em um momento anterior, outro alguém me perguntou se havia carros nas ruas de Teresina, talvez com uma imagem semelhante àquela que os estrangeiros têm dos brasileiros: a de que vivemos como o Tarzan, em meio à Floresta Amazônica. Mas sobre o […]

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