"10" Post(s) encontrado(s) na categoria: Crônicas

11 de maio de 2021

1 Comentário

Padecer no paraíso

Por Eriane Dantas

Ser mãe é padecer no paraíso — dizem as mães com sorrisos nos lábios. Acho esse ditado um tanto infeliz, além de ineficaz quando se trata de atrair novas candidatas à maternidade. Aliás, nunca compreendi a necessidade que têm as mães de ver todas mulheres do mundo vivendo essa experiência. Se uma mulher confessar, diante de um grupo de mães, que não planeja ter filhos, vai escutar de 95% delas a seguinte resposta: “Ah, mas você tem que ter pelo menos um”. Pode testar! Quando eu ouvia esse tipo de afirmação, revirava os olhos em pensamento. Primeiramente, porque qualquer frase que comece com “você tem que” não pode terminar bem. Em segundo lugar, se nem eu tenho certeza sobre as melhores escolhas para mim (eu, que vivo em mim há décadas), como outra pessoa terá?

Continue lendo
29 de abril de 2021

0 Comentários

Outra vida

Por Eriane Dantas

Durante muito tempo tive medo de aparecer: poucas palavras ditas, nada de fotos, nada de vídeos, nada de exposição da intimidade e dos sentimentos diante de muita gente. Uma postagem como esta então seria impensável poucos anos atrás. E, ao mesmo tempo que desejava conquistar outros leitores e leitoras além da minha mãe, receava exibir os meus escritos. Estou falando disso hoje aqui porque, à véspera de completar 12.419 dias na Terra, orgulho-me de ter matado parte desse monstro em mim. Para isso, além das parcerias que fiz nos últimos anos, da terapia, da relação com esse pequeno ser ao meu lado na foto, concorreram o meu sonho de escrever, o blog e a entrega a desafios no meu trabalho (e até encontros infelizes por lá).

Continue lendo
13 de abril de 2021

0 Comentários

Não seja apenas feliz

Esse menino cheio de expressões, cheio de estilo, veio ao mundo há exatos 24 meses, antes do nascer do sol. É engraçado. O nosso primeiro encontro foi também a nossa primeira separação. Ele chegou reclamando, mostrando suas vontades. Seu choro ocupou o espaço e foi interrompido assim que nos aproximamos, como se ele quisesse ouvir o que eu tinha a dizer. Eu nada disse. Só senti sua pele na minha, a sensação de ver de perto um rosto que a tecnologia havia nos antecipado. Era a minha primeira vez ali também, numa sala com tanta luz, com tanta gente ao redor, com tanta volta no estômago. Sua chegada mudou a nossa vida, a rotina da casa, fazendo-nos até mudar de casa. Já se passaram dois anos e, embora pareça que foi ontem, sinto como se o Joaquim estivesse conosco desde sempre. Incorporou-se à família de forma tão natural, que não […]

Continue lendo
25 de novembro de 2020

2 Comentários

O giz vermelho e a insatisfação permanente

Por Eriane Dantas

‘Como seria bom se eu tivesse um ioiô!’. Esse é um dos pensamentos de Sara, a personagem principal do livro infantil O giz vermelho, de Iris van der Heide e Marije Tolman (Martins Fontes, 2006). Toda vez que leio essa história me pego em uma reflexão: não estaríamos nós em uma insatisfação permanente? Eu digo nós porque posso me incluir nesse grupo que, vez ou outra, olha para os objetivos alcançados e, como Raul Seixas naquela canção*, se pergunta: “E daí?”. Sara inicia a narrativa com um giz vermelho, deseja fazer desenhos no chão com ele, porém é desencorajada pelo piso irregular. Ela então encontra um menino brincando com bolas de gude, se interessa pelo brinquedo e propõe uma troca. Assim a menina percorre todo o livro, reparando que o objeto em suas mãos não tem a graça que ela imaginava e cobiçando o brinquedo de outra criança.

Continue lendo
10 de novembro de 2020

0 Comentários

A TV e eu

Por Eriane Dantas

Fui criada diante da TV, vendo desde O fantástico mundo de Bob até a banheira do Gugu (e uma porção de outros programas que hoje nos causam espanto). Naquela época, nem sonhávamos com Netflix e redes sociais; não tínhamos um aparelho de videocassete em casa; minha família não tinha condições de encher estantes com livros. Por falar em livros, além dos didáticos, lembro-me de três lá em casa: Coração de boneca, de Ilka Brunilde Laurito; Os Grandes Líderes: Juscelino, de Geraldo Mayrinck; e Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída, de Kai Hermann e Horst Rieck (que minha irmã e eu encontramos na rua e que, pelo tema, eu nem cheguei a ler). Então, o mundo entrava pelos olhos e pelos ouvidos, com imagens e sons, naquela caixa que tinha o poder de reunir a família na sala. A atração principal para mim eram as telenovelas, em especial as […]

Continue lendo
17 de outubro de 2020

0 Comentários

Meu ser piauiense

Por Eriane Dantas

Ser piauiense é estranhar com freqüência a pecha da pobreza, do calor insuportável, do imenso curral, do rústico corredor de passagem; é ter que ouvir aqueles de ‘fora’ a perguntar: como se fala, o que se faz, quem é o conhecido de lá’ (Rabelo, 2008, p. 14, sic). “Você conhece o Pedro?” — alguém questionou certa vez, ao saber que nasci e morei na capital do Piauí por quase doze anos. Eu respondi que não, mas por dentro minha resposta não foi tão calma assim. Que diabo de pergunta era aquela? Como poderia conhecer um ser humano, identificado apenas como Pedro, em uma cidade com milhares de habitantes? Em um momento anterior, outro alguém me perguntou se havia carros nas ruas de Teresina, talvez com uma imagem semelhante àquela que os estrangeiros têm dos brasileiros: a de que vivemos como o Tarzan, em meio à Floresta Amazônica. Mas sobre o […]

Continue lendo
01 de agosto de 2020

2 Comentários

Mulheres e homens: somos tão diferentes assim?

Recentemente li inúmeras notícias a respeito da sobrecarga de trabalho enfrentada pelas mulheres durante a pandemia. Não é novidade que as mulheres em geral se ocupam mais que os homens das tarefas domésticas e do cuidado da família, mas é provável que isso tenha se agravado neste período. Essa situação resulta de um velho pensamento que relaciona as mulheres ao cuidado. Afinal, muitas pessoas (tanto homens quanto mulheres) acreditam que somos sensíveis, delicadas e maternais apenas por sermos mulheres. Mas será mesmo que as mulheres nascem destinadas a realizar determinadas tarefas e os homens, a realizar outras? Será que homens e mulheres têm interesse inato por temas e atividades específicos?

Continue lendo
23 de julho de 2020

3 Comentários

A lunática das listas

Por Janete Marques

Levar as crianças à escola, pegar a fantasia da Ayo na costureira, ir à apresentação das crianças às 18h, marcar consulta no dentista para Zuri, marcar consulta no ginecologista, passar no mercado, entregar os livros na biblioteca, terminar de fazer os planos de aula da próxima semana, corrigir as provas, entregar os trabalhos do 7º ano, transferir o dinheiro para minha mãe. Preciso confessar, sou viciada em listas. Tem gente que quando acorda faz prece, oração, ioga, lê “Minutos de sabedoria”. Eu não. Eu faço listas. Elas me dão a sensação de que estou no controle. Sinto que sou o ser humano mais organizado do mundo. Não, não sou. Parece exagero, né? Talvez. Mas a minha vida só funciona com as abençoadas listas. Nem sei quando me tornei a lunática das listas. Acho que foi depois da maternidade. A cobrança e o julgamento por ser mãe solteira… Não, mãe solteira […]

Continue lendo
14 de julho de 2020

4 Comentários

A melhor amiga

Por Eriane Dantas

Quando eu tinha oito ou nove anos de idade, uma menina nova ingressou na minha turma da escola. Pequena e bonita, todo mundo se encantou por ela e desejou sua amizade (até os meninos, que não se misturavam com as meninas a não ser para implicar). Mas, vejam só, a novata olhou para mim, se aproximou e quis ser minha melhor amiga. Assim foi. Como fazem as melhores amigas, andávamos sempre juntas, sentávamos lado a lado, brincávamos e conversávamos apenas nós duas, como se ninguém mais existisse na escola. Outra menina resolveu fazer contato comigo um tempo depois. Não lembro como era, mas recordo que não havia qualquer coisa nela que eu reprovasse (ela sequer me inspirava antipatia). Por isso, dediquei-lhe minha atenção.

Continue lendo
04 de julho de 2020

4 Comentários

O forró e outra lembrança

Por Eriane Dantas

Em toda a nossa vida juntos, há momentos que sempre recordamos de vez em quando, como aquela noite embaraçosa no forró. Se eu pudesse viajar no tempo, voltaria àquela noite só para reagir de outro modo ao ser abordada no meio do salão. Evitaria assim a vergonha que viveu entre nossos amigos, que fixaram uns olhos compridos em nós. Mas, naquela noite, enquanto casais rodopiavam ao som do baião, eu não poderia prever o nosso futuro. E acho que já fui perdoada faz tempo ou não estaria eu aqui lhe escrevendo estas palavras quase treze anos depois.

Continue lendo

1 2 3
© 2021 Histórias em MimDesenvolvido com por