18 de maio de 2022

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[Resenha] Curral de serras

Por Alvina Gameiro

  • Título Original: Curral de serras
  • Gênero do Livro: Romance
  • Editora: Nórdica
  • Ano de Publicação: 1980
  • Número de Páginas: 228
Sinopse: O leitor será apresentado a um mundo fascinante e novo. A cultura, os costumes, o modus vivendi, enfim, é, entre os caboclos do Nordeste, algo que não se altera já há muito tempo. E exatamente isto, que não se altera, mas nos é novo, é o que Alvina Gameiro oferece.
Esse romance encanta não só pela história, mas também pela maneira como a história é contada. É um verdadeiro trabalho de teletransporte. Lendo o livro, nos sentimos entre aqueles que da terra vivem, naquela região que costuma ser tão estereotipada.

Desde que terminei a leitura de Curral de serras, de Alvina Gameiro, estou à procura de um adjetivo que o defina. Impressionante, surpreendente e encantador são palavras batidas e não refletem a grandiosidade dessa obra.

Curral de serras foi o penúltimo livro da autora, publicado em 1980, que também escreveu os títulos A vela e o temporal (1957), O vale das açucenas (1963), Chico Vaqueiro do meu Piauí (1979), entre outros.

Alvina Gameiro nasceu em 1917, em Oeiras, no Piauí, e faleceu em 1999, em Brasília, Distrito Federal (DF), depois de ter morado em diversas cidades do Brasil e do mundo. Teve uma rica carreira literária e uma formação bastante avançada para as mulheres de sua época (formou-se em artes plásticas na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, e graduou-se na Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque, nos Estados Unidos). Ganhou prêmios literários, foi membro da Academia Piauiense de Letras e ministrou aulas de inglês e português.

Quem já leu a minha biografia aqui no blog sabe que nasci em Teresina, Piauí, e moro no DF há 23 anos (cheguei aqui justamente no ano em que Alvina se foi). Então, você pode suspeitar que a minha empolgação com essa obra se deve a uma espécie de bairrismo.

Não vou negar que me interesso por qualquer coisa que escuto ou leio a respeito do meu estado natal. No entanto, não foi esse o motivo da minha atração pelo livro, que eu descobri numa lista de dez melhores obras piauienses, a qual arremata e no qual se distingue como o único de autoria feminina.

O narrador de Curral de serras chama-se Rogato Valente Coral-Bóia. Aliás, o seu nome verdadeiro é Marcelo dos Andrades Cajazeiras, mas ele o esconde por desconfiança. Valente (ou Marcelo) conta a história para um “doutor” que escuta com atenção e não interrompe sua fala.

O tempo é que não parava, sempre em riba do caminho. Dezembro se gastava era de todo, prometendo água no coice. Em tudo que a gente olhasse, ‘tava escrito: vai chover. O céu mandava recado, a terra se preparava, a bicharada curtia desassossego, e a feição do tempo desmudava (p. 37-38).

Valente é um sertanejo piauiense que se destaca pelos diversos talentos, que vão desde a indicação de remédios até o adestramento de cavalos. Teve um pouco mais de estudo que a maioria das pessoas à sua volta; sabe ler, escrever, contar e se expressar com desenvoltura, embora não seja de seu feitio divulgar os próprios sentimentos e pensamentos. Valente viveu muitos anos no mundo, em uma missão, distante da mãe de quem sente saudade.

No início da narração, Valente relata o seu encontro com um vaqueiro, chamado Pulquério, que está em busca de um homem com aquelas características para trabalhar na fazenda de sua patroa, em Pernambuco. O narrador estranha e, mesmo com uma ponta de medo, vai com o homem, por curiosidade de descobrir o que esconde essa oferta de emprego e também porque alguma coisa lhe diz que lá vai pôr fim à sua caça.

Na fazenda, ainda escabreado, mantém-se sempre alerta e silencioso, apenas observando e calculando cada palavra, e cai sem querer nas graças da patroa, a dona Isabela. Esbarra com o que não desejava encontrar e se convence de que achou o que procurava.

O Doutor vai me seguindo? Tomou o piso do enredo. Entonces, dê reparo que ‘tou mesmo m’enfiando, sem saída, é numa estória de amor… (p. 37)

A trama é envolvente — contém surpresa e reviravoltas. Porém, o que mais me chamou a atenção foi a linguagem, essa linguagem diferente daquela usada nos grandes centros urbanos. Fiquei maravilhada com o emprego do linguajar próprio do interior, um linguajar que talvez tenha se alterado desde o tempo representado na obra ou mesmo desde a sua criação — afinal, a língua é viva —, mas conservou muitos elementos ali apresentados. Que conhecimento Alvina Gameiro tinha do jeito de falar dos sertanejos!

Aquela língua regional aparece de modo tão realista, com expressões pitorescas — por vezes engraçadas —, com uso de metáforas, com tanta poesia, que até esqueci, em certos momentos, que se tratava de uma obra de ficção. Ela me tocou de forma profunda, com um sentimento de reconhecimento, de pertencimento, de saudade.

Quando o sol trancou olho duma vez, carregando sobrancelhas de nuvrezia denegrida, dando d’escurecer tudo, o ventou terrou os pés, peneirando poeirão, tanto grosso como fino, e lá vinha naqueles mundos, gastando sustança muita, por tanger, doido varrido, o encontrado na frente: garranchos, gravetos, cavacos, moitas de capim ressecos, folhas velhas e verdes mesmas, que desbastava dos galhos, arremessadas no chão (p. 44).

Essa obra merecia destaque, merecia ser conhecida em todo o Brasil — ou ao menos no Nordeste e no Piauí. Eu jamais tomei conhecimento do livro ou da autora durante os meus anos escolares. Também não os vejo em indicações de leituras (a não ser aquela que citei no início), nem mesmo quando se faz uma lista de produções literárias nacionais. Só encontrei Curral de serras à venda em um sebo na Estante Virtual (e suspeito que comprei o último exemplar que havia por lá).

A quem tiver a oportunidade, eu recomendo a leitura. Além de um registro da cultura e da expressão nordestina, de um modo de vida por vezes esquecido, é uma obra de arte, uma aula de escrita (e eu certamente vou usá-la como inspiração em meus projetos regionalistas).

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