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20 de agosto de 2019

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Cartas para Marilu (n° 6)

Segunda-feira, 1° de julho de 1985.


Minha querida filha,


No dia em que enviei a última carta, a observei caminhando para a escola, dessa vez sozinha, com uma expressão séria e um olhar difícil de interpretar. Parecia que seus olhos contemplavam algo que não se encontrava ali, algo que eu não via. O vento bagunçou seus cabelos, e você tentou reordená-los com uma mão, enquanto a outra segurava uma pequena pilha de livros, que caíram e se espalharam pelo chão. Por um instante fantasiei, presunçosa, que sua aparente tristeza tivesse relação com minhas cartas, com nossa separação, com a falta que faço em sua vida. Quis me aproximar, ajudá-la a recolher os livros, ajudá-la a carregar a preocupação que parecia mais pesada que suas forças de menina. Porém, no minuto seguinte, percebi a tolice da ideia. O medo dominou meu corpo, me impedindo de dar um único passo. Não sabia como você me receberia e me mortificaria com seu desprezo.

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06 de agosto de 2019

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Quanto tempo

Por Eriane Dantas

Ela não sabe há quanto tempo está ali, no mesmo lugar, vendo os mesmos humanos passarem dia após dia, com olhar fixo no horizonte, acelerados, como quem tem pressa de alcançar a linha de chegada. Deve haver uma recompensa ao final da caminhada de cada um, ela imagina, o pote de ouro no fim do arco-íris, como ouviu um sujeito dizer certa vez. Queria ela também receber aquele prêmio. Mas preferiria um pote de sorvete, a sobremesa intrigante que as pessoas tomam com uma careta sorridente.

Ela não sabe há quanto tempo está ali. Tenta puxar pela memória, mas lá não há qualquer calendário ou relógio. Ninguém lhe ensinou quantas horas há no dia, quantos dias há no mês e quantos meses há no ano. Ela também não conseguiria calcular. Tem apenas a sensação de já ter visto o sol nascer e se pôr muitas vezes daquele ponto. Talvez tenham se passado vários meses ou anos.

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11 de junho de 2019

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Lembrança e esperança

Por Eriane Dantas

Mamadas, choro, fraldas sujas. A memória me aponta, maldosa, aqueles dias de antes, aqueles dias tomados pela série da vez, pelo livro do momento; aquelas noites de encontros com múltiplos personagens; aqueles dias previsíveis; aquelas noites de sonos inteiros.

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28 de dezembro de 2018

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Cartas para Marilu (n° 5)

Por Eriane Dantas

Sábado, 29 de junho de 1985.


Marilu,


Fiquei admirada com a notícia do início de seu namoro com o filho do amigo de seu pai. Como minha pequena menina poderia estar pensando em amor? Mas é hora de enxergar a realidade: como eu disse na primeira carta, você se transformou em uma bela moça. Aquela garotinha que caminhava para lá e para cá abraçada a um urso de pelúcia não existe mais, a não ser na minha memória, embora não pareça fazer tanto tempo que ela se foi.

Por falar nisso, você se lembra do Dudu? Era o urso de pelúcia mais feio que já se tinha visto, mas você mesma o havia escolhido ao avistá-lo nas mãos de um vendedor de rua. Dudu logo se tornou seu melhor amigo. Dormia ao seu lado toda noite e a ajudou a enfrentar o medo do escuro. Era o único que a acalmava quando estava doente. Ele se sentava conosco à mesa de jantar, ia a qualquer passeio e testemunhava todos os nossos momentos. Era, afinal, parte de nossa família.

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