Como muita gente no Brasil, cresci na frente da televisão. As telenovelas fizeram/fazem parte da minha vida e foram minha primeira inspiração para criar histórias.
Mas, em boa parte da minha infância, não pude assistir às novelas da Globo. Assistia apenas às novelas do SBT (a trilogia das Marias, Carrossel, Chiquititas e por aí vai),
Talvez por nostalgia, hoje prefiro as mais antigas, especialmente as da década de 1990. Gosto de observar os costumes, a moda, os padrões de beleza, os carros da época e tento avaliar os acontecimentos com os olhos daquele tempo. Há nessas obras situações que seriam inaceitáveis nos dias de hoje, como a normalização da violência contra a mulher.
No último semestre, maratonei três novelas daquela década que não têm o reconhecimento que merecem.
Fiquei viciada nelas e em suas trilhas sonoras, que até agora escuto de vez em quando.
Tem coisa mais incrível do que ver uma criança aprender?
Comecei a ler para o meu filho ainda na minha barriga, mas foi com mais ou menos três meses que tornei essa prática uma rotina. Todo dia, antes de dormir lemos um livro (às vezes dois). E ai de mim se tentar furar o compromisso. Já tive que ser substituída nessa tarefa, mas a leitura da noite nunca pode faltar.
Com isso, vivemos um tantão de histórias. Acompanhamos as peripécias da Clara Luz e da Serafina, vimos sumir o medo do Gildo e da Chapeuzinho Amarelo, rimos dos causos do Bichinho da Maçã, torcemos pela vingança da Pequena Toupeira, nos divertimos com e nos compadecemos do Leocádio, tivemos pena da Árvore Generosa e da Lúcia-Já-Vou-Indo, acreditamos no Grúfalo e no Urso Esfomeado, viajamos com o Papagaio-de-Cara-Roxa, sofremos com o destino do Papagaio Reginaldo, choramos com o Ernesto, aprendemos sobre liberdade com o Monstro Rosa e sobre diálogo com o Monstro Azul e estivemos com outras tantas personagens.
Ele familiarizou-se cedinho com a língua portuguesa, conheceu palavras e expressões que não usamos no dia a dia e leu também muitas imagens. Foi aprendendo a variação da entonação, a diferença entre narrador e personagem e até a ideia de conflito. Obteve informações e desenvolveu a memória, a empatia, entre outras competências. Hoje, ele já sabe até dizer quando não gosta de um livro, mas ainda tem dificuldade de escolher apenas um preferido (eu entendo, também a tenho).
Como ele vai ser? O que ele vai fazer quando crescer? Às vezes eu me flagro com essas perguntas ao observar meu filho. Quando o vejo se interessar por livros, criar suas músicas, fingir que canta em inglês, dançar break no meio da sala ou se apresentar diante de um público, eu penso: vai ser artista. Quando ele se mostra entusiasmado por esportes, eu arrisco: vai ser atleta. Quando o escuto planejar as suas futuras invenções, que vão desde um robô ajudante até a fórmula da imortalidade, eu me pergunto: será que vai ser cientista?
Ele próprio já listou uma dezena de ofícios que pretende desempenhar: bombeiro, policial, cientista, músico, cozinheiro etc. Vai competir em todas as modalidades das Olimpíadas.
Se o percebo um pouco arredio, eu torço que não seja tímido como a mãe.
Quase sempre eu brigo comigo mesma. Assim como não me convém voltar ao passado, não é saudável viajar para o futuro, um futuro distante, ainda que o tempo vá se encarregar de encurtar essa distância. Não faz bem esse exercício de adivinhação.
Ser parte de um grupo é uma necessidade inata do seres humanos. Segundo artigo de Julia Estanislau (2023), publicado no Portal de Divulgação Científica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP), esse sentimento tem relação com reconhecimento: uma pessoa vê-se pertencente a um grupo ou a uma comunidade quando cria um laço com os outros integrantes, sente-se acolhida e respeitada em sua individualidade.
Para Dionei Mathias (2023), no artigo Pertencimento: discussão teórica, o desejo de pertencimento se inicia na relação entre mãe e bebê, na busca do novo sujeito pela confirmação do afeto materno. Depois se reproduz, de maneiras diferentes, nas demais interações sociais que o sujeito terá ao longo de sua vida.
Já a exclusão social, que é o oposto do pertencimento, ainda conforme o autor, ocorre quando o indivíduo não atende aos requisitos determinados pelos grupos dominantes (por exemplo, os populares ou, na atualidade, os influenciadores), aqueles que conseguem concentrar a atenção e definir o que tem ou não relevância. Quem se enquadra nessas regras detém maiores chances de se sentir pertencente.
This website uses cookies to improve your experience while you navigate through the website. Out of these, the cookies that are categorized as necessary are stored on your browser as they are essential for the working of basic functionalities of the website. We also use third-party cookies that help us analyze and understand how you use this website. These cookies will be stored in your browser only with your consent. You also have the option to opt-out of these cookies. But opting out of some of these cookies may affect your browsing experience.
Necessary cookies are absolutely essential for the website to function properly. This category only includes cookies that ensures basic functionalities and security features of the website. These cookies do not store any personal information.
Any cookies that may not be particularly necessary for the website to function and is used specifically to collect user personal data via analytics, ads, other embedded contents are termed as non-necessary cookies. It is mandatory to procure user consent prior to running these cookies on your website.