10 de novembro de 2020

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A TV e eu

Por Eriane Dantas

Fui criada diante da TV, vendo desde O fantástico mundo de Bob até a banheira do Gugu (e uma porção de outros programas que hoje nos causam espanto). Naquela época, nem sonhávamos com Netflix e redes sociais; não tínhamos um aparelho de videocassete em casa; minha família não tinha condições de encher estantes com livros.

Por falar em livros, além dos didáticos, lembro-me de três lá em casa: Coração de boneca, de Ilka Brunilde Laurito; Os Grandes Líderes: Juscelino, de Geraldo Mayrinck; e Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída, de Kai Hermann e Horst Rieck (que minha irmã e eu encontramos na rua e que, pelo tema, eu nem cheguei a ler). Então, o mundo entrava pelos olhos e pelos ouvidos, com imagens e sons, naquela caixa que tinha o poder de reunir a família na sala.

A atração principal para mim eram as telenovelas, em especial as mexicanas, já que minha mãe nos proibia de assistir às nacionais, incluindo Malhação. Isso não queria dizer que, vez ou outra, minha irmã e eu não déssemos uma espiada em alguma delas (ainda me recordo bem de uma noite em que, por acaso, me vi diante de um televisor que exibia Xica da Silva e de outra noite em que minha irmã e eu nos escondemos atrás do sofá para conferir Pedra sobre pedra — e nem me lembro das cenas em si).

Assistir às novelas mexicanas era um prazer que eu compartilhava com minha irmã (principalmente) e com minha mãe. Os vexames de Maria do Bairro ou Marimar nos causavam sensação de vergonha alheia (ainda mais em minha irmã, que cobria os olhos para não ver a protagonista comer frango com as mãos em um jantar elegante, por exemplo). Esperávamos com ansiedade o “boa noite” final do apresentador do telejornal que antecedia Carrossel. Eu me compadecia, agora sozinha, da triste vida das órfãs de Chiquititas.

María Teresa Andruetto, em Por uma literatura sem adjetivos, nos fala da necessidade humana de se encontrar com a ficção, porque esta nos permite acessar outros mundos, viver outras vidas e, assim, (re)elaborar a nossa própria vida. Acho que as novelas supriam essa necessidade em mim quando eu não sabia — não poderia saber — que me encontraria na literatura, quando não me era possível ser uma leitora devotada.

Andei vasculhando a memória dias atrás, tentando encontrar a origem da minha paixão pela escrita, e a descobri justamente ali, nas telenovelas que me prendiam a atenção e me emocionavam. Lembrei que um dia sonhei em ser autora de novelas e, por isso, enchia cadernos com histórias carregadas de drama e tragédias, ao estilo daquilo que eu via todo dia.

Hoje não me envergonho em confessar que passei mais tempo da minha infância na frente da televisão do que na companhia de livros. É claro que eu gostaria de ter lido mais (muito mais), porém não posso voltar no tempo e, mesmo que voltasse, talvez não pudesse mudar a situação daquele momento, daquele contexto. Também compreendo que as experiências que vivi por meio daquele aparelho tiveram algum valor e, de alguma maneira, contribuíram na constituição da pessoa que me tornei.


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Referência:

ANDRUETTO, María Teresa. Por uma literatura sem adjetivos. São Paulo: Pulo do Gato, 2012.

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