04 de março de 2021

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As mulheres e a escrita

Porque é um enigma perene a razão pela qual nenhuma mulher jamais escreveu qualquer palavra de uma literatura extraordinária quando todo homem, ao que parece, é capaz de uma canção ou de um soneto (Woolf, 2014, p. 63).

O excerto que escolhi para iniciar este texto é parte do livro Um teto todo seu, um ensaio originado de duas palestras que Virginia Woolf concedeu em 1920, em duas faculdades inglesas exclusivas para mulheres. Nelas a autora discute as desigualdades sociais entre mulheres e homens e seu impacto sobre as possibilidades de mulheres se entregarem à atividade de escrita.

Virginia Woolf observa que os homens (mesmo aqueles sem qualificação) escreviam a respeito de mulheres. Já as mulheres que escreviam não falavam sobre os homens, e quase não se encontravam obras escritas por elas.

Como causas para esse fenômeno Woolf aponta as seguintes: as mulheres não tinham dinheiro (mesmo que integrassem famílias ricas, o dinheiro não lhes pertencia), não podiam estudar, eram forçadas a se casar com homens que não escolhiam, eram obrigadas a se dedicar ao trabalho doméstico, não tinham direito a opinião própria, eram criadas basicamente para serem esposas e mães. Por isso, a autora chama a atenção para a distância que havia entre a forma como as mulheres eram retratadas (pelos homens) na ficção e a forma como eram tratadas na realidade:

Quem não é historiador poderá ir além e dizer que as mulheres têm brilhado como um farol em todos os trabalhos de todos os poetas desde o princípio dos tempos […]. De fato, se a mulher não existisse a não ser na ficção escrita por homens, era de se imaginar que ela fosse uma pessoa da maior importância; […] tão grandiosa como um homem, para alguns até mais grandiosa. Mas isso é a mulher na ficção. Na vida real […], ela era trancada, espancada e jogada de um lado para o outro (Woolf, 2014, p. 65-66).

Um trecho marcante de Um teto todo seu é a analogia entre Shakespeare e sua irmã fictícia Judith. Nascidos na mesma família, Shakespeare e Judith não teriam as mesmas condições e dificilmente ela teria conseguido escrever peças como a do irmão. Isso porque, enquanto ele vivia com liberdade, podia se aventurar, estudar e ler os clássicos, ela seria obrigada a ficar em casa e não teria oportunidades iguais:

Ela era tão aventureira, tão imaginativa, tão impaciente para conhecer o mundo quanto ele. Mas ela não frequentou a escola. Não teve a oportunidade de aprender gramática e lógica, que dirá de ler Horácio e Virgílio. Apanhava um livro de vez em quando, talvez um dos de seu irmão, e lia algumas páginas. Mas logo seus pais surgiam e ordenavam que fosse coser as meias ou cozer o guisado e não mexesse em livros e papéis (Woolf, 2014, p. 71).

É de conhecimento geral que, por muito tempo, as mulheres publicaram livros sob pseudônimos masculinos, tanto para serem respeitadas pelo mercado editorial e pelo público, como para não serem julgadas pelo conteúdo dos textos.

Mesmo quando assumiam a autoria e recebiam retorno por seu trabalho, o meio literário não era justo com elas. Foi o caso de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), uma das primeiras romancistas do Brasil, que tinha boa aceitação da crítica por sua obra e vivia da escrita no final do século XIX. Júlia ajudou a criar a Academia Brasileira de Letras (ABL), mas sua candidatura foi rejeitada pela maioria dos homens, que temiam a entrada de mulheres na Academia.

Alguém então pode dizer: Ah, isso foi no passado. Hoje a vida das mulheres é totalmente diferente. Será mesmo?

Em pesquisa realizada entre 2015 e 2017, que buscou compreender as origens sociais e a trajetória de escritores brasileiros, mediante levantamento de informações acerca de autores publicados por editoras de São Paulo e do Rio de Janeiro, Stella (2018) identificou que apenas 107 dos 354 autores pesquisados eram mulheres (ou seja, 30,23%).

Embora a história de Júlia Lopes de Almeida tenha ocorrido há dois séculos, a ABL ainda não abriu as portas para as mulheres. Dentre as quarenta cadeiras, apenas cinco são ocupadas por escritoras atualmente. São elas:

  • Ana Maria Machado;
  • Cleonice Berardinelli;
  • Rosiska Darcy de Oliveira;
  • Lygia Fagundes Telles; e
  • Nélida Piñon.

Rachel de Queiroz foi a primeira mulher aceita pela Academia. Isso ocorreu em 1977, exatos oitenta anos após a fundação da instituição.

Em 2018, uma campanha popular (inclusive com abaixo-assinado) pediu o ingresso da escritora Conceição Evaristo na Academia. Ela seria a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na ABL. Mas Conceição recebeu apenas um voto, e Cacá Diegues foi eleito com 22.

Quanto aos pseudônimos, vale lembrar que J.K. Rowling, a criadora de Harry Potter, utilizou as iniciais de seus dois primeiros nomes, escondendo “Joanne”, para ter sua história publicada e aceita pelo público, formado especialmente por jovens do sexo masculino.

Quando falamos da realidade brasileira, é necessário destacar que as mulheres têm nível de escolaridade mais alto que os homens e que são as responsáveis financeiras em quase metade dos lares (34,4 milhões). Isso, por um lado, significa que a mulher vem ganhando cada vez mais independência financeira, mas, por trás disso, encontramos os problemas da desigualdade salarial e da sobrecarga de trabalho.

Durante a pandemia (que ainda não acabou), a conhecida jornada dupla feminina se intensificou, com a junção do trabalho doméstico, tipicamente atribuído à mulher, o cuidado dos filhos em tempo integral (devido ao fechamento de creches e escolas), o home office e o isolamento social. No caso das mulheres não inseridas no mercado de trabalho formal, o home office foi substituído pela preocupação com o sustento da família. Há ainda as mulheres na linha de frente do combate ao novo coronavírus ou no desempenho de atividades consideradas essenciais. O que se viu foi exaustão e estresse, sem falarmos do aumento de casos de violência doméstica.

Em tais condições, como a mulher pode se dedicar à escrita? Para termos uma ideia, pesquisa nacional mostrou que a produção de artigos científicos por mulheres foi mais afetada do que a produção por homens (especialmente no caso de mulheres negras com ou sem filhos e mulheres brancas com filhos).

O que pode ser feito para mudar essa situação? Na minha opinião, com base no que escrevi aqui, a equidade entre mulheres e homens no campo da escrita depende da equidade nos demais campos da vida social, pois os homens sairão sempre à frente se, por exemplo, o trabalho doméstico continuar a ser realizado em sua maioria pelas mulheres (elas dedicam hoje quase duas vezes mais tempo nesse trabalho do que eles) ou se o mercado editorial continuar a privilegiar os escritores do sexo masculino.

Existem iniciativas, como o Leia Mulheres, que buscam incentivar a leitura de obras literárias escritas por mulheres, considerando que, além de ter menos espaço no meio editorial, como vimos mais acima, elas recebem menos destaque. Todos nós podemos começar esse movimento em nossa vida particular, observando, em nossa estante, em nossa lista de desejo, na nossa relação de livros preferidos, quantos são de autoria feminina.

Respondendo ao questionamento de Virginia Woolf, como ela mesma o faz no decorrer do ensaio, a razão da disparidade entre escritoras e escritores não está na falta de talento das mulheres, como os homens tentaram fazer crer ao longo dos anos. Para escrever, a mulher (assim como o homem) precisa de “um teto todo seu”, como diria a autora, um ambiente tranquilo, condições materiais, tempo e estímulo. A nossa sociedade, embora com seus avanços, ainda não trata as mulheres com o mesmo deferimento que dedica aos homens (em qualquer âmbito).


Referências:

WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. São Paulo: Tordesilhas, 2014.

STELLA, Marcello Giovanni Pocai. Literatura como vocação: escritores brasileiros contemporâneos no pós-redemocratização. 2018. 2013 f. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018. Disponível em: <https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8132/tde-29032019-134526/pt-br.php>. Acesso em: 30 out. 2019.

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4 Comentários

  • Ana Luiza
    05 março, 2021

    Que texto maravilhoso! “… a equidade entre mulheres e homens no campo da escrita depende da equidade nos demais campos da vida social”.
    Obrigada, Eri!

    • Eriane Dantas
      08 março, 2021

      Eu que agradeço, minha amiga querida! 😉

  • Eliete Morais
    04 março, 2021

    Texto incrível, como sempre!
    Só posso deixar aqui minhas palmas👏👏👏👏

    • Eriane Dantas
      08 março, 2021

      Muito obrigada, minha querida amiga! 🙂

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