"4" Post(s) arquivados na Tag: concursos literários

23 de julho de 2020

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A lunática das listas

Por Janete Marques

Levar as crianças à escola, pegar a fantasia da Ayo na costureira, ir à apresentação das crianças às 18h, marcar consulta no dentista para Zuri, marcar consulta no ginecologista, passar no mercado, entregar os livros na biblioteca, terminar de fazer os planos de aula da próxima semana, corrigir as provas, entregar os trabalhos do 7º ano, transferir o dinheiro para minha mãe.

Preciso confessar, sou viciada em listas. Tem gente que quando acorda faz prece, oração, ioga, lê “Minutos de sabedoria”. Eu não. Eu faço listas. Elas me dão a sensação de que estou no controle. Sinto que sou o ser humano mais organizado do mundo. Não, não sou. Parece exagero, né? Talvez. Mas a minha vida só funciona com as abençoadas listas. Nem sei quando me tornei a lunática das listas. Acho que foi depois da maternidade. A cobrança e o julgamento por ser mãe solteira… Não, mãe solteira não. Mãe solo. Só mãe mesmo. Esses dias li numa revista que maternidade tinha  a ver com ter filhos e não com estado civil. Gostei. Onde estava? Sim. Depois da maternidade me tornei essa pessoa que precisa anotar tudo num papel. O tempo era o vilão a ser combatido. Ele teimava em passar ligeiro e eu tinha que ser mais rápida que ele. Que comecem os jogos!

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16 de julho de 2020

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O bordado pelo avesso

Por Sinval Farias

A viagem prossegue morna e o tempo se estira. A janela do ônibus reflete uma aflição desmedida. Paisagem estorricada, sequidão nos riachos, arremedos de bichos no esboçado dos pastos. O sol do quase meio-dia ignora a maquiagem, retocada de instante em instante. As poucas poltronas ocupadas seguem silenciosas.

Quinze anos sem dar notícias. Uma ligação, a morte da mãe anunciada. Decidiu digerir rancores e reencontrar o sítio materno.

Pela enésima vez, apruma-se na poltrona, revolve os cabelos, recruza as pernas. As horas riscam o azulado do horizonte.

O trajeto remonta a figura do velho pai, olhos ressequidos, sobrancelhas grosseiras. Relembra o dia em que parou a lida e improvisou penteado numa espiga de milho. Apanhou para o resto da vida.

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09 de julho de 2020

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Diáspora

Por Oly César Wolf

Éramos família, ou algo muito similar a isso. Ficávamos sentados à mesa, calados, como se ela fosse um altar onde rezávamos pelo milagre da multiplicação do alimento, que era sempre menor que a nossa fome. Milagre nunca houve. Quanto a nós, bem, nós não. Apenas isso, somente negativa éramos, como vazios escavados na matéria, como ausências encarnadas em corpos magros.

Aqueles eram dias duros que trincavam nossos dentes obrigados a roê-los. Por isso, por não vencermos mastigar a ossatura da nossa miséria, nos contentávamos em lamber o mole silêncio que vertia de nossas bocas semiabertas. Éramos quase pai e quase filho. Espírito não havia, muito menos santo. Mãe, irmãos, também havia, ou quase. Uns desacompanhando os outros, como se perfilados na vida e unidos pelos pés por uma pesada corrente de dias.

Pai morreu, mãe também. Morremos todos naquele lugar, não de morte de fato, mas de insignificância. Éramos mirrados, pequenos de quase não ser.

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29 de junho de 2020

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Dois anos de Histórias em mim

Aniversário e resultado do concurso literário

O blog

Hoje faz dois anos que publiquei meu primeiro texto aqui, meio sem saber se teria leitores ou se persistiria com este projeto.

Como eu contei naquela apresentação, o blog nasceu por sugestão de uma pessoa muito querida, que sempre me ouvia falar da minha paixão pela escrita e, ao mesmo tempo, da minha angústia por não compartilhar meus escritos com outras pessoas.

Titubeei diante da ideia. Jamais havia pensado em ter um blog e, de certa forma, embora quisesse ser lida, receava as críticas. Além do mais, aquela não parecia mais uma época (no mundo e na minha própria vida) de se investir em blogs.

Agora nem parece que duvidei. O blog já é parte da minha vida. Virou rotina criar os textos para publicar aqui (não uma rotina no sentido pesado, de um ato repetitivo e chato). Tive altos e baixos, vontade de desistir, momento de pouca inspiração, mas o blog resiste, assim como resiste em mim o desejo de emocionar, inspirar e divertir com minhas palavras. O blog Histórias em mim fez uma transformação em mim e me mantém em movimento, como me disse uma amiga querida.

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