19 de novembro de 2020

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Três livros infantis para refletir sobre identidade

Identidade? O que é isso mesmo? Identidade descreve “algo que é diferente dos demais, porém idêntico a si mesmo” (PUC/RIO, p. 14). Ou seja, é aquilo que nos torna únicos em meio a bilhões de pessoas. É como aquele documento chamado pelo mesmo nome que usamos para provar quem somos.

Identidade é construída individual e socialmente, a partir das características pessoais, da memória coletiva, dos valores culturais etc. É constituída na relação entre sujeito e sociedade, havendo a forma como o indivíduo se identifica e como é identificado pelos outros.

Não é estática, como uma fotografia. Pode se alterar ao longo da vida, influenciada pelas vivências e rupturas, em um processo conduzido pela própria pessoa, embora cada indivíduo mantenha uma essência, um estilo.

Portanto, o reconhecimento de nós mesmos é construído na nossa relação com os outros, podendo sofrer a interferência do modo como os outros nos veem. De qualquer maneira, ninguém construirá nossa identidade por nós; essa construção compete ao próprio sujeito.

Para refletir sobre a construção da identidade, hoje apresento aqui três livros para crianças com abordagens e estilos diversos que têm em comum a referência ao tema.

1. A parte que falta

‘Oh, busco a parte que falta em mim por terras e mares sem fim, asse o pudim, faça o quindim, estou buscando a parte que falta em mim’.

Com texto e ilustrações de Shel Silverstein, A parte que falta (Companhia das Letrinhas, 2018) é um livro para crianças bastante conhecido e tem uma continuação: A parte que falta encontra o grande O (Companhia das Letrinhas, 2018).

Com desenhos simples, em preto em branco, a história narra a jornada de um (quase) círculo em busca de sua parte faltante. Ele vai rolando, cantando, enfrentando as adversidades e vivendo momentos memoráveis. Encontra muitas partes que não são suas ou não consegue manter junto de si as que parecem mais adequadas. Então continua a busca. Até que se depara com a parte perfeita e aí faz uma descoberta importante.

Muito bem-humorado, esse livro toca na influência que a presença (ou não) do outro tem na forma como nos enxergamos. Embora sua procura não seja pesarosa, o protagonista se reconhece incompleto, já que claramente lhe falta uma parte, o que lhe impede de ser um círculo de verdade.

Mas, fazendo um paralelo com minha resenha mais recente (Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire), não seria essa incompletude uma qualidade positiva? É ela que, no caso dos seres humanos, nos move, nos impede de estagnar. E o círculo também vai perceber isso.

2. Pinóquio: o livro das pequenas verdades

Se Pinóquio fosse o Senhor Raposo, não seria mais somente um boneco de madeira.

Escrito e ilustrado por Alexandre Rampazo, Pinóquio: o livro das pequenas verdades (Boitatá, 2019) foi o vencedor deste ano do Prêmio FNLIJ, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), na categoria criança.

Essa releitura do famoso conto infantil nos põe diante de alguns questionamentos: o que eu vejo ao me olhar no espelho? Como eu vejo o outro? Como minha percepção do outro modifica a percepção que tenho ao meu respeito?

Pinóquio vê no espelho apenas um boneco de madeira e pensa que, se fosse qualquer outro personagem, não seria mais só esse boneco de madeira. Então não lhe importa quem seja (Gepeto, o Senhor Gato, um tubarão gigante etc.), contanto que seja outro.

Isso acontece tanto. A vida do outro, o jeito do outro, o outro podem parecer melhores do que aquilo que temos ou vemos em nós mesmos. Isso talvez porque, ao olhar no espelho, não estejamos reparando em nós mesmos, mas vendo o reflexo dos outros.

Nesse livro, no qual texto e ilustrações formam um par inseparável, Rampazo brinca com os espelhos e conduz Pinóquio à construção de uma nova visão sobre sua condição de boneco de madeira.

3. O urso que não era

‘Você não é um urso coisa nenhuma. É um homem bobo que precisa fazer a barba e usa um casaco felpudo. […]’

Com título e ilustrações de Frank Tashlin, O urso que não era (Boitatá, 2018) é uma obra divertida e, ao mesmo tempo, séria (porque traz uma porção de críticas ao comportamento humano).

Aqui acompanhamos um urso surpreendido, após sua hibernação, com uma fábrica em cima de sua gruta. Ele não entende onde está, mas sabe que nada é igual a como ele viu pela última vez: não há floresta, está tudo escuro.

Os homens que encontram o urso o mandam trabalhar (afinal, ninguém pode estar parado no meio de uma fábrica) e o levam a seus superiores hierárquicos. E nenhum deles acredita quando o urso jura que é um urso e não um trabalhador dali.

De tanto repetirem que ele não é um urso, o urso acaba acreditando que realmente não é; talvez seja mesmo um homem bobo que precisa fazer a barba e usa um casaco felpudo. Mas ser o que não é (ou não ser o que é) pode fazer o urso feliz?

Com essa história, a primeira coisa que vem à mente é como a visão dos outros sobre nós impacta a nossa autoidentificação. Pode ser que as concepções alheias a respeito do nosso modo de ser e estar no mundo nos levem a crer que somos aquilo que nos afirmam, mesmo que não nos identifiquemos com aquelas opiniões.

O urso, coitado, mesmo depois de trabalhar muitos meses na fábrica, terá dificuldade de se encaixar no papel de humano, e a necessidade lhe fará repensar seu conceito.


Referência:

Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Definições de identidade. Rio de Janeiro: PUC-Rio. Disponível em: https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/21902/21902_3.PDF&ved=2ahUKEwjA8oSFw43tAhVSGVkFHTiEByIQFjALegQIERAB&usg=AOvVaw0oq5vOQUUdJeiKF-fBDgdi


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