10 de outubro de 2020

2 Comentários

Crianças curiosas na literatura

Falar em crianças curiosas é um tanto redundante. As crianças nascem dispostas a explorar o mundo e olham para a vida de modo diferente. Como boas investigadoras, sabem, por pura intuição, que só podem desvendar o funcionamento das coisas com observação e testes (para descobrir que som a colher faz ao cair no chão, por exemplo, é necessário arremessá-la).

Em algum momento, porém, as instituições comandadas pelos adultos (família, escola, religião etc.) fazem crer que tanta experimentação e tanta imaginação são banais, inconvenientes ou até prejudiciais. Começam as proibições, as respostas prontas, as fugas aos temas difíceis. E lá se vão a investigação e a criatividade.

Hoje quero apresentar três crianças que vão contra essa tendência, buscando respostas para problemas que os adultos consideram bobos ou procurando um caminho alternativo àquele escolhido pelos mais velhos. Neste dia das crianças, desejo que nos lembremos de incentivar o espírito investigativo e criativo dos pequenos e de resgatar o nosso próprio desejo de aprender.

1. Um menino que adora perguntar

Como a maioria das crianças, o personagem principal de Não, sim, talvez (SESI-SP editora, 2014), parceria de Raquel Matsushita (texto) e Ionit Zilberman (ilustrações), adora fazer perguntas. Afinal, quem quer aprender precisa questionar, e há um bocado de coisas que ele ainda não entende.

Por que nunca vi uma árvore de salda de frutas?
Por que o cocô é marrom se a comida é colorida? (p. 8).

Mas, no início, esse menino não aceita que existam mais de uma resposta para cada pergunta. A mãe lhe dá uma resposta, a irmã dá outra, e isso faz uma confusão danada na cabeça do menino. Por vezes, sem paciência para tanta pergunta, as duas soltam um “porque sim” ou um “porque não”. Cabe então ao menino (com a ajuda do tempo) aprender que uma questão pode gerar respostas distintas e brincar com a infinidade de caminhos por onde as dúvidas podem levá-lo.

2. Naia

Naia, a protagonista de Deslumbres e assombros (Edições SM, 2017), escrito por Lucas M. Carvalho e ilustrado por Rafa Anton, é uma menina que lê todo dia e exercita a imaginação — uma imaginação que só cresce, junto com uma interrogação sobre o que pode haver além do único lugar que conhece.

Naia começou a imaginar coisas que se projetavam além da possibilidade do real. Essa indagação, essa dúvida, essa vontade de ver e imaginar o que havia adiante não a deixou descansar. Teimosia de criança pode ser muito instigante… (p. 23).

Com tais características, não é de se estranhar quando ela comunica aos pais que ultrapassará o tronco que bloqueia a entrada do vilarejo e será a primeira moradora a sair dali. Seu ato de coragem abalará para sempre a vida acomodada dos habitantes daquele lugar e a sua também. A menina parte em uma aventura fantástica que lhe permite descobrir novos lugares, coisas e seres (e, como não poderia ser diferente, descobrir uma nova Naia).

Obs.: Já falei sobre essa história no blog antes. Se quiser saber mais, dá uma olhada aqui na resenha.

3. Ana Júlia

Ana Júlia, de Em busca da sombra (Edições SM, 2007), de autoria de Suzana Montoro (escritora) e Rogério Coelho (ilustrador), é uma menina questionadora. Como ela mesma diz, gosta de ficar na cama com a luz apagada, fingindo que está dormindo e pensando nas coisas que não consegue entender. A mãe adverte:

‘Ana Júlia, minha filha, nós não precisamos entender as coisas que não entendemos’ (p. 10).

Será mesmo? Ana Júlia não leva essa afirmação muito a sério. Um dia percebe que, de vez em quando, sua sombra desaparece e, com o incentivo da avó Ada e a ajuda da melhor amiga Fê, vai à procura da sombra em toda parte, até acendendo vela para o anjo da guarda. As duas meninas tentam desenhar suas sombras, inventam nomes para elas e se envolvem em brincadeiras e conversas que as fazem se conhecerem mais profundamente e aprenderem coisas que nem imaginavam.

Onde estivéssemos, na escola, em casa, na rua, em vez de olhar para as pessoas, olhávamos para as sombras. No começo, estranhamos isso, mas logo nos habituamos e percebemos: quanto mais se olha, mais se vê (p. 48).


E você? Também conhece uma criança curiosa (ficcional ou real)? Se quiser, deixe a resposta nos comentários.


***


Para conhecer essas crianças, você pode adquirir os livros pelos links a seguir:


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2 Comentários

  • Ana Luiza
    12 outubro, 2020

    Eri, lendo o que você escreveu sobre essas três crianças curiosas lembrei da criança que fui um dia.
    Eu e minha mãe estávamos deitadas no chão da varanda da nossa casa num dia de muito calor. Olhávamos o céu e eu iniciei uma conversa sobre Deus. Estava curiosa. “Mãe, se Deus criou a gente e tudo o que existe, quem criou Deus?”.
    Minha mãe não sabia responder, claro. E despistou minha curiosidade falando sobre qualquer coisa de que entendia.
    Os adultos têm muito a aprender com a curiosidade das crianças. Só porque eles não sabem as respostas, não quer dizer que não se possa perguntar…

    • Eriane Dantas
      Eriane Dantas
      19 outubro, 2020

      Que lembrança, Ana!
      É verdade. Nós temos a mania de fugir das perguntas das crianças, né? Porque não sabemos a resposta, porque não sabemos como responder ou porque achamos que eles não podem saber sobre o assunto. Enfim, também acho que temos muito a aprender com a curiosidade delas.
      Um beijo.

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