02 de julho de 2026

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Jardim

enterrei sementes
plantei mudas
aguei suas raízes
adubei
podei
arranquei o mato à volta
persegui as pragas
acariciei o tronco
cortei as folhas secas

um par de plantas ressecaram
pereceram
viraram alvo das formigas
outras tantas espicharam
deram flores
pariram frutos
ofereceram sombra
como refresco no calor do dia

eu
porém
só evoco
a rosa vermelha
vagarosa
tímida
que rompeu
esplendorosa
numa manhã fria
e nem bem registrei
sua presença
murchou
caiu do pé
desfalecida
17 de maio de 2025

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[Resenha] A viagem do elefante

De José Saramago

  • Título Original: A viagem do elefante
  • Gênero do Livro: Conto
  • Editora: Companhia das Letras
  • Ano de Publicação: 2017
  • Número de Páginas: 260
Sinopse: A viagem do elefante , primeiro livro de José Saramago depois do relato autobiográfico Pequenas memórias (2006), é uma ideia que ele elaborava há mais de dez anos, desde que, numa viagem a Salzburgo, na Áustria, entrou por acaso num restaurante chamado O Elefante. Com sua finíssima ironia e muito humor, sua prosa que destila poesia, Saramago reconstrói essa epopeia de fundo histórico e dela se vale para fazer considerações sobre a natureza humana e, também, elefantina. Impelido a cruzar meia Europa por conta dos caprichos de um rei e de um arquiduque, Salomão não decepcionou as cabeças coroadas. Prova de que, remata o autor, sempre se chega aonde se tem de chegar.
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Sempre termino a leitura de um livro de José Saramago com a impressão de que alguma coisa mudou em mim e com o sentimento quase infantil de que posso criar histórias tão inspiradoras como ele fez.

Em A viagem do elefante, o autor não decepciona. Vejo ali seu estilo de escrita, que o distingue dos outros escritores e que, por vezes, assusta os leitores; vejo também a ironia e a crítica social que encontrei em todas as outras obras suas que já conheci. Há, porém, algum aspecto que diferencia essa das outras histórias e que não sei apontar com certeza.

Nesse seu penúltimo romance, publicado em Portugal dois anos antes de seu falecimento, Saramago transformou um fato histórico do século XVI, do qual não se conhecem tantos detalhes, em uma fábula cheia de humor, ironia e reflexão.

O personagem central é Salomão, um elefante indiano com o qual D. João III, rei de Portugal, e a rainha Catarina, sua esposa, presentearam o arquiduque Maximiliano II da Áustria. Salomão já não era uma novidade por aquelas bandas e naquele momento vivia isolado em um cercado, na companhia de seu cornaca (tratador) Subhro. A ideia do presente então surgiu como solução para o problema de manter ali um animal imenso, que já não causava curiosidade e que consumia forragem e água aos montes.

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08 de maio de 2025

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Tem horas

Tem horas que você quer ser
sozinha,
você e os pensamentos,
você e a imaginação,
trancada no quarto,
alinhavando suas palavras.
Tem horas que cansa.
A nostalgia pede
alguém que pergunte
você tá bem
e queira saber de verdade
e não precise de explicação
e vá entender
e dar razão
mesmo que seja bobagem.
Você tem saudade
de alguém que conheça
você,
que preze estar
do seu lado,
que não viva sempre
com pressa,
que tenha vaga
no calendário,
que olhe pra você
quando você fala.
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07 de março de 2025

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Esse negócio de ser mulher

Você e eu 
diferimos
na roupa, 
na fala, 
no jeito de andar, 
no corpo, 
no percurso, 
nos desejos, 
na idade, 
no cabelo, 
no pensar.
Não conheço sua história, 
você ignora a minha,
mas entendo desse negócio
de ser mulher.
Posso apostar: 
você,
assim como eu,
vive ou viveu,
pequena ou grande,
uma privação,
uma agressão,
uma discriminação.
Assim como eu, 
você se empenha
por um modelo
nem meu nem seu
e se endireita
e alisa
e se envergonha
e pinta
e esconde.
Você, 
como eu,
acreditou
que combatemos
cada uma para um lado,
que deve se provar
acima de mim
e eu de você.
Aqui eu revelo: 
assim como você,
eu ambiciono direito,
sucesso,
respeito,
felicidade,
afeto.
Que tal 
lutarmos do mesmo lado?
Eu lhe dou a mão
para você não tropeçar
e você me levanta
quando eu cair.
E assim
apontamos
nossas armas
para o real adversário.

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