28 de dezembro de 2020

3 Comentários

[Resenha] A hora da estrela

Por Clarice Lispector

  • Título Original: A hora da estrela
  • Gênero do Livro: Romance
  • Editora: Rocco
  • Ano de Publicação: 2020
  • Número de Páginas: 91
Sinopse: Pouco antes de morrer, em 1977, Clarice Lispector decide se afastar da inflexão intimista que caracteriza sua escrita para desafiar a realidade. O resultado desse salto na extroversão é A hora da estrela, o livro mais surpreendente que escreveu. Se desde Perto do coração selvagem, seu romance de estreia, Clarice estava de corpo inteiro, todo o tempo, no centro de seus relatos, agora a cena é ocupada por personagens que em nada se parecem com ela.
A nordestina Macabéa, a protagonista de A hora da estrela, é uma mulher miserável, que mal tem consciência de existir. Depois de perder seu único elo com o mundo, uma velha tia, ela viaja para o Rio, onde aluga um quarto, se emprega como datilógrafa e gasta suas horas ouvindo a Rádio Relógio. Apaixona-se, então, por Olímpico de Jesus, um metalúrgico nordestino, que logo a trai com uma colega de trabalho. Desesperada, Macabéa consulta uma cartomante, que lhe prevê um futuro luminoso, bem diferente do que a espera. [...]
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Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias.

Esse é o segundo livro da Clarice Lispector que leio. O primeiro foi A mulher que matou os peixes, obra destinada a crianças sobre a qual escrevi aqui dias atrás.

Fiquei em dúvida se falava ou não a respeito de A hora da estrela no blog. Quando se trata de autores ou autoras e obras clássicas, me pergunto o que posso acrescentar. Tantas análises e tantos comentários já foram feitos sobre essa obra. Tantas vezes Clarice foi mencionada, ainda mais no ano de seu centésimo aniversário.

Nesse pequeno livro, Clarice criou um escritor, chamado Rodrigo S.M., que narra (ou põe para fora) a história de Macabéa, uma sofrida alagoana moradora do Rio de Janeiro que não tem consciência da tristeza de sua vida. Ela não tem nada, não sente nada, não reclama de nada. Não vê com maus olhos o tratamento que o namorado Olímpico lhe reserva ou aquele que sua tia lhe dedicava; não se magoa com a colega Glória, que rouba o seu namorado; não desconfia da cartomante, Madama Carlota, que lhe prevê um futuro de felicidade.

Macabéa é o retrato dos desvalidos do mundo, levando a vida sem pensar nela, sem ser enxergada ou, quando vista, sendo pisada.

Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam.

A história de Macabéa é horrível, como a própria Madama Carlota diz. A descrição da moça é bastante eficiente em nos mostrar o quão infeliz ela é, mesmo que não perceba. Senti empatia, pena e, às vezes, até raiva por não vê-la reagir, mas logo a desculpei: ela não tem os recursos para essa reação.

Durante o texto e as reflexões do narrador-escritor, dá para notar a autora verdadeira se confundindo com o autor fictício:

Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita.

Sem falar que eu em menino me criei no Nordeste. Também sei das coisas por estar vivendo.

E com frequência Rodrigo S.M. discute a necessidade da escrita, a escrita que nos ajuda a falar daquilo que não sabemos, que serve para exteriorizar o que nos sufoca:

Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever.

O livro como um todo é um modelo para a aprendizagem da escrita. A leitura, porém, não mexeu comigo, não me prendeu do início ao fim (desculpem-me os fãs da escritora!).

É engraçado o poder que têm os clássicos. Quando não sentimos conexão com eles, culpamos a nossa compreensão. A verdade é que uma obra literária, por mais bem-escrita que seja, só nos atrai quando toca em algo em nós, mesmo que não tenha relação direta com a nossa história.

Decidi então falar desse livro aqui não para criticar, mas chamar a atenção para o caráter pessoal da nossa relação com os livros. Uma obra que me marca pode não marcar outras pessoas (e vice-versa); da mesma forma, um mesmo livro pode causar reações diversas em mim em diferentes fases da vida.


Se quiser descobrir o impacto que esse clássico causará em você, clique no link a seguir:

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3 Comentários

  • Samara
    06 outubro, 2021

    ameiiii, muito bomm msm!!! continue com esse trabalho que vc vai muito longe, com esse capricho então, nem se fala!!!

  • Kétyla ivo
    20 setembro, 2021

    parabéns pelo blog. Lindo , atual, e com ótimo conteúdo. Não pare nunca viu

    • Eriane Dantas
      22 setembro, 2021

      Você parece que estava adivinhando, Kétyla! Seu comentário chegou numa ótima hora. Muito obrigada! 🙂

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