23 de outubro de 2026

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Ainda há esperança

Escrevo em outubro de 2026, a dois dias do segundo turno das eleições presidenciais. Daqui a pouco mais de quarenta e oito horas, saberemos quem será o presidente do Brasil no período de 2027 a 2030.

Estou exausta desta campanha eleitoral, em especial dessas últimas três semanas, como a maior parte da população, e confesso que não estou confiante sobre qual será o resultado, mas mantenho a esperança.

Entre os anos de 2019 e 2022, escrevi várias vezes neste mesmo espaço sobre o meu sentimento em relação à situação do país, sob o comando de um governo federal que agiu com descaso diante de uma pandemia (vide a demora na compra das vacinas, o incentivo à aglomeração e o deboche com que o presidente se referiu a pessoas ser ar, só para dar alguns exemplos). Não apenas isso. Aquele foi um governo abertamente contrário às minorias, cujo discurso sempre incitou o ódio contra quem não o apoiava – os(as) jornalistas que o digam. Ainda tem mais: cortes nos recursos para a educação, extinção do ministério da cultura e alta inflação (quem não se lembra da fila do osso?).

Bem, a esta altura, você que me lê já sabe em quem votarei, embora nem seja necessário ler o parágrafo acima para obter essa informação. Basta dar uma olhada na minha biografia, aqui mesmo neste site: sou mulher, nordestina, escritora, servidora pública. Quer dizer, antes esses poderiam ser identificadores de posição política. Hoje não são mais.

No começo deste texto, confessei que não estou tranquila. Ingenuamente acreditei que o resultado no primeiro turno seria bem mais favorável ao atual presidente. Acreditei nisso ao pensar no que passamos entre 2019 e 2022, em tudo o que temos escutado sobre o outro candidato há meses e no que os jornais nos contam sobre as experiências dos nossos vizinhos Argentina e Colômbia, que elegeram presidentes com ideias muito parecidas com a de Flávio Bolsonaro. Não imaginei que quase metade dos eleitores e das eleitoras deste país escolheria voltar a viver aquele passado tão recente.

Desde o primeiro turno, tenho tentado entender a cabeça de quem deu seu voto em uma pessoa claramente despreparada para o cargo que quer ocupar. O curioso é que nada, absolutamente nada, é capaz de dissuadir seus eleitores e suas eleitoras; nada é suficiente para fazer essas pessoas enxergarem para além do discurso pronto. Não adianta falar, por exemplo, que podemos perder muitos dos direitos que conquistamos. A escala de trabalho 5×2 foi aprovada dias atrás e não está garantida em uma eventual presidência de Flávio Bolsonaro (ainda mais tendo a maioria no Congresso Nacional). Ele mesmo falou em implantar o pagamento do trabalho por horas trabalhadas e a negociação entre empregado(a) e empregador(a), assim como anunciou cortes de gastos (que vão impactar benefícios como a aposentadoria) e em alterar a Constituição Federal. Ele é crítico do Programa Bolsa Família (que chamou de “bolsa-farelo”) e, não faz muito tempo, posou para foto ao lado do irmão e do presidente dos Estados Unidos, bem na época em que aquele país aplicou taxas sobre produtos exportados pelo Brasil.

Será que o ódio ao Partido dos Trabalhadores (PT) é tão grande assim ao ponto de tapar as vistas dessas pessoas para esses riscos? Será que esse ódio fala mais alto do que a defesa da própria dignidade e sobrevivência? Será que não é tempo de refletirem e deixarem de lado aquelas pautas velhas e cansadas que só existem e sobrevivem nos grupos de WhatsApp ou nos vídeos do TikTok? Já não é mais possível argumentarem que estão lutando contra o comunismo, porque, em todos esses anos de governos do PT, claramente essa nunca foi uma ameaça real. Já não é mais aceitável que me venham com papo de banheiro unissex, liberação do aborto e outras baboseiras, pois isso não cola mais.

O que mais me intriga em toda essa campanha é o apoio da população mais humilde a um candidato que fala abertamente em medidas que dificultarão a vida dessa mesma população. Somos um país de trabalhadores e trabalhadoras, um país sustentado por gente assalariada, por pequenos empreendedores e empreendedoras e pessoas que vivem do trabalho informal. Os trabalhadores e as trabalhadoras são a maioria da população e têm poder para exigir o cumprimento dos seus direitos e para evitar retrocessos. Em vez disso, porém, muitos trabalhadores e trabalhadoras estão lutando contra si mesmos, deixando-se ludibriar por quem não tem interesse algum em nos beneficiar, talvez com a ilusão de fazer parte de um grupo que definitivamente não integram ou com o desejo de um dia se tornarem como eles.

Sempre ouvi falar que cada pessoa vota de acordo com seus próprios interesses. No caso atual, acho que essa máxima não se aplica mais. Criticam tanto os(as) beneficiários(as) do Bolsa Família, que supostamente votam em quem promete manter o benefício. Da minha parte, penso que esse é um voto muito mais legítimo do que o voto do(a) trabalhador(a) em favor do seu patrão ou do(a) aposentado(a) contra o seu próprio direito.

Do primeiro turno para cá, li inúmeras mensagens nas redes sociais de gente se sentindo vitoriosa com o resultado das urnas, como se estivéssemos em meio a um campeonato de futebol. Eles dizem: “chora, ptezada”. Sim. Talvez choremos no dia 25 de outubro. No entanto, acredito que muito mais gente chorará a partir de 1º de janeiro de 2027, porque qualquer ação do governo não impactará só a vida de quem votou contra; impactará a vida do país inteiro.

Entendo que a vida não seja perfeita. É duro que, até hoje, o Brasil continue a ser um país em desenvolvimento. Precisamos, entretanto, olhar para trás e comparar o presente com o que vivíamos décadas atrás. Os nossos avanços só vieram com políticas sociais. Queremos continuar avançando ou preferimos retornar ao passado? Queremos mesmo arriscar a nossa democracia, os nossos direitos e a nossa soberania? Queremos nos afastar do que estamos construindo (sim, a passos lentos) na área social?

Não compreendo e jamais compreenderei. Porque para mim há um abismo entre os dois candidatos. Não é uma escolha difícil.

É provável que alguém levante o argumento anticorrupção. Porém, basta pesquisar o histórico do candidato do Partido Liberal (PL) e de sua família para descobrir que o argumento não passa de desculpa. Os(as) eleitores(as) de Flávio Bolsonaro são rápidos em apontar o dedo para Lula, enquanto escolhem fechar os olhos para todos os esquemas que vêm sendo revelados nos últimos anos sobre o seu candidato. É incoerente.

Bem, eu não sei em que você aí vai votar (ou já votou). Não conheço os seus motivos. Mas eu sei os meus motivos para votar no Lula, motivos estes que ninguém pode refutar.

Eu quero uma vida boa, mas não só para mim e minha família. Quero que todas as crianças cresçam em um país com mais educação, mais cultura, mais cuidado com a saúde. Quero um país que facilite a compra de livros e não de armas. Quero viver em um país que protege a mulheres e as crianças. Quero um país que valoriza todas as vidas, não só as privilegiadas. Quero viver em um país em que todos e todas tenham emprego, comida, casa própria e tempo livre para viver. Quero um país em que ainda tenhamos liberdade de expressão e de crença, um país em que a religião não mande no Estado nem determine a vida da gente. Quero que as minorias sejam respeitadas e que não tenham seus direitos roubados. Quero que o Brasil continue a ser nosso e que proteja as nossas riquezas naturais.

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