01 de junho de 2021

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Sem esmalte e de calcinha

Por Eriane Dantas

Olha as minhas unhas. Nunca mais pintei. Vontade de botar um esmalte vermelho. Ah, pintar pra quê? Não saio de casa há um ano. As pessoas me veem dos ombros pra cima. Posso até aparecer só de blusa e calcinha. Não, nunca fiz isso. Fique tranquilo (nem me imagine só de roupa íntima se me vir por aí em lives ou reuniões).

Por falar em lives, a quantas você assistiu desde o ano passado? E de quantas reuniões online participou? Já notou que, nas reuniões, as pessoas foram adquirindo o hábito de não ligar mais as câmeras? Não vemos o rosto de ninguém, ouvimos apenas a voz. Vai ver que não querem sequer vestir a blusa. É constrangedor conversar com um quadrado com uma ou duas letras. É como uma teleconferência. E eu fico me perguntando: quando retornarmos ao trabalho presencial, compareceremos às reuniões com uma tarja na cara, onde estarão escritas as nossas iniciais?

Você aí, ainda faz chamadas de áudio? Nunca gostei muito e, com o advento das mensagens de texto, fico aliviada quando posso resolver qualquer coisa por escrito. “Marque a sua consulta aqui” — é uma frase que me acalma. Sei lá, me deixa ansiosa o ritual de digitar o número, ensaiar a fala, esperar o atendimento (que pode envolver uma musiquinha), explicar o meu desejo. Hoje me lembrei de quando usava o orelhão. Minha mãe me mandava telefonar para a rádio da cidade dos meus avós e pedir a transmissão de um recado ou uma música em datas importantes. Alô! É da rádio de São Miguel? Quero pedir uma música.

Eu, que sou caseira de doer, estou ficando meio sufocada dentro de casa. Não, não vou falar aqui da pandemia. Ninguém aguenta mais esse tema. Escutei em algum lugar uma verdade: já se foi o tempo de escrever sobre isso. Em graus diferentes, este momento tem sido difícil para todo mundo. Infelizmente, estamos tão atrasados na vacina, que ainda vai levar um tempo para se tornar passado. Porém, como meu esposo diz, devemos agradecer se não perdemos entes queridos.

Estou pensando no retorno à rotina anterior a este tempo pandêmico. Abraçar, tocar as mãos, ficar a menos de dois metros de distância, não usar máscara, tudo isso parecerá comportamento inadequado. Receio até que, mesmo vacinada, mesmo com a doença controlada, eu não me sinta confortável nos encontros presenciais. Pode ser que, em vez de me sentar com as amigas ou os colegas de trabalho, eu faça chamadas de vídeo. Estranho aglomeração até em filme antigo, em programa reprisado. Fico chocada quando os atores apertam as mãos ou dão abraços. Aí eu me lembro que isso era um hábito de antes. Parece que faz tanto tempo, quase como em outra vida.

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