20 de abril de 2021

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Quem são os indígenas do Brasil

Afinal, quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? Os indígenas são aqueles que de fato pertencem ao lugar […]. (p. 9).

Em minha experiência como professora da rede pública de ensino do Distrito Federal, de 2009 a 2013, presenciei todo ano, nesta época, a escola inteira falando de um único assunto: o Dia do Índio.

Preciso dizer a verdade: isso sempre me incomodou. Não por abordarmos a data comemorativa e sim pela forma como a abordávamos (eu incluída sempre), com desenhos para colorir, com uma imagem estereotipada, com a música da Xuxa e com alguma superficialidade acerca das diferenças culturais. Não mencionávamos o insistente projeto de dizimação da população indígena, a marginalização à qual a relegamos nem o que realmente é ser indígena. Não por maldade (creio eu), mas por desconhecimento das diversas culturas indígenas (não se pode falar em apenas uma cultura). Também pelo esquecimento no qual jogamos os verdadeiros donos desta terra.

A importância em acolher, proteger e conhecer todas essas identidades é maior do que se imagina. Os indígenas podem nos ensinar a viver melhor em um mundo pior […] (p. 10).

Um exemplo do esquecimento ou da distorção da história é o que acontece no meu estado natal. Diz-se que no Piauí não existem indígenas, os quais teriam saído (por vontade própria) daquela região. Mas será que isso condiz com a realidade? A verdade é que os indígenas que lá viviam foram mortos ou expulsos pelos bandeirantes. Atualmente há indígenas no estado, embora não houvesse terras demarcadas no território até agosto de 2020. Ano passado, foi publicada a Lei n° 7.389, de 27 de agosto de 2020, que reconheceu formal e expressamente a existência de povos indígenas nos limites da extensão territorial do Estado do Piauí.

Neste texto então quero sugerir aquilo que não fiz em meus anos de sala de aula: levar para as crianças a realidade dos indígenas do Brasil, sua relação com a terra (e não só no mês de abril). Isso pode ser feito por meio da literatura, que cada vez mais se engrandece com obras indígenas, criadas por autores e autoras indígenas, como, por exemplo, Daniel Munduruku e Eliane Potiguara.

Minha recomendação de hoje é a antologia Nós, organizada e ilustrada por Mauricio Negro e composta por dez histórias narradas por escritores pertencentes a diferentes etnias: mebengôkré kayapó, saterê-mawé, maraguá, pirá-taúya waíkhana, balatiponé umutina, taurepang, umuko masá desana, guarani mbyá, krenak e kurâ-bakairi.

O jeito de viver daquela época ajudava o equilíbrio da vida. Os homens não interferiam no curso da natureza. Não desmatavam, não poluíam nem faziam guerras com outras gentes por qualquer motivo banal (p. 70).

As histórias são criações próprias, recontos ou mitos dos respectivos povos. Ao final de cada uma delas, há um texto informativo sobre o povo e um glossário, além da biografia dos autores.

Vale a pena conhecer essa riqueza de narrativas. Eu escolhi duas preferidas: Yawareté Açu, o jabuti e a onça pintada, de Rosi Waikhon, e Os raios luminosos, de Jera Poty Mirim. Cada leitor ou leitora certamente vai eleger as suas. O mais importante é nos encontrarmos com os povos ancestrais, olharmos o mundo através de seus olhos. Nunca é demais dizer que temos muito a aprender com os indígenas, pois, como escreve Mauricio Negro na apresentação da antologia, eles podem nos ajudar a reaprender a conviver, a repensar o consumo desenfreado, a compreender a necessidade de respeitar a natureza e de conter os danos que causamos ao meio ambiente. Enfim, é urgente essa aproximação e esse conhecimento dos povos originários.


Referência:

NEGRO, Mauricio (Org.). Nós: uma antologia de literatura indígena. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2019.


Para adquirir a antologia, você pode clicar no link a seguir:

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