02 de dezembro de 2020

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Os jovens não gostam de ler

Em nosso encontro, no dia 22 de novembro de 2020, a escritora Palmira Heine perguntou minha opinião sobre a afirmação que eu trouxe no título deste texto (quem não viu a live passa lá no perfil da escritora no Instagram ou clica aqui).

Naquele momento, lembrei-me de uma pesquisa cujos resultados foram divulgados há poucos meses. Resolvi então conferir a pesquisa para ter certeza de que não disse alguma bobagem.

Realizada pelo Instituto Pró-Livro (IPL) 2007, a pesquisa Retratos da leitura no Brasil já teve cinco edições (2001, 2007, 2011, 2014 e 2019). Em 2019, o IPL contou com a parceria do Itaú Cultural e entrevistou 8.076 pessoas com 5 anos ou mais de idade em 208 municípios, abrangendo todas as unidades federativas.

A pesquisa constatou uma leve diminuição no percentual de leitores: 52% dos entrevistados declararam ter lido pelo menos um livro, inteiro ou em partes, nos três meses anteriores à realização da pesquisa. Em 2015, essa porcentagem chegou a 56%.

Entre as pessoas mais jovens (aqui estou incluindo as crianças e os adolescentes de 5 a 17 anos) encontram-se os maiores percentuais de leitores:

  • 71% das crianças de 5 a 10 anos;
  • 81% das crianças ou dos adolescentes de 11 a 13 anos;
  • 67% dos adolescentes de 14 a 17 anos.

Em relação ao gosto pela leitura, esses grupos também se sobressaem: 46% das crianças de 5 a 10 anos; 36% das crianças ou dos adolescentes de 11 a 13 anos; e 30% dos adolescentes de 14 a 17 anos declararam gostar muito de ler. Enquanto outros 42% das crianças de 5 a 10 anos; 62% das crianças ou dos adolescentes de 11 a 13 anos; e 53% dos adolescentes de 14 a 17 anos declararam gostar um pouco.

Quando se trata da motivação para ler, 48% das crianças de 5 a 10 anos apontaram “gosto” como a principal razão para ler um livro, fator priorizado também por 33% das crianças ou dos adolescentes de 11 a 13 anos e por 24% dos adolescentes de 14 a 17 anos.

Quanto à indicação dos livros, as professoras e os professores foram citados por 53% das crianças de 5 a 10 anos; por 48% das crianças ou dos adolescentes de 11 a 13 anos; e por 38% dos adolescentes de 14 a 17 anos. As mães ou outras responsáveis do sexo feminino foram apontadas por 13% das crianças de 5 a 10 anos; por 11% das crianças ou dos adolescentes de 11 a 13 anos; e por 6% dos adolescentes de 14 a 17 anos.

Já em relação à influência no gosto pela literatura, as professoras e os professores apareceram nas respostas de 77% das crianças de 5 a 10 anos; 76% das crianças ou dos adolescentes de 11 a 13 anos; e por 68% dos adolescentes de 14 a 17 anos. E as mães ou outras outras responsáveis do sexo feminino, nas respostas de 70% das crianças de 5 a 10 anos; por 54% das crianças ou dos adolescentes de 11 a 13 anos; e por 41% dos adolescentes de 14 a 17 anos.

Há outros dados nessa pesquisa e diferentes formas de interpretá-los, mas podemos verificar, numa análise superficial, que são as pessoas mais jovens que elevam o índice de leitores no país. São elas também que mais declaram gostar de ler, mesmo que não deixem de realizar outras atividades, como acessar a internet.

Conforme a pesquisa, a escola, as professoras e os professores são significativos incentivadores da leitura. As mães ou outras responsáveis do sexo feminino, também.

Então por que temos a impressão de que crianças e adolescentes (principalmente estes últimos) não leem? Essa pesquisa, como toda pesquisa, mostra um quadro da realidade (e não a realidade completa). Ela é só um retrato, como seu próprio título diz. Por isso, pode ser que as crianças e os adolescentes ao nosso redor não se encaixem nesse perfil.

As informações, porém, ajudam na reflexão sobre como estimulamos a leitura entre jovens leitores e leitoras.

Notemos que o motivo mais importante entre eles e elas para escolher um livro é o gosto e que poucos usam os livros para adquirir conhecimento geral (4%, 9% e 10%, respectivamente) ou aprender algo novo (13%, 18% e 18%, respectivamente).

Esse ponto é irônico. Enquanto muitos adultos (escritores e escritoras, pais e mães, professores e professoras etc.) se esforçam para produzir e oferecer livros que ensinem conteúdos, valores e hábitos, jovens leitores e leitoras estão interessados em obras que atraiam sua atenção, que causem algum tipo de emoção.

Pensando nisso, podemos nos perguntar: nossa falha não pode estar exatamente na indicação dos livros? Não estamos desconsiderando os gostos pessoais das crianças e dos adolescentes? Não poderíamos deixá-los escolher suas próprias leituras?

No encontro com a Palmira Heine, destaquei as leituras obrigatórias na escola, quando éramos forçados a ler determinados títulos, necessários para o estudo de conteúdos escolares ou mesmo para a prova do vestibular. Sei que isso ainda acontece, mas vem mudando. Na minha vivência, como eu contei aqui, não me recordo de outras iniciativas de incentivo à leitura nas instituições escolares que frequentei.

Com essa minha colocação, pode parecer que nego a relevância de aproximarmos as crianças e os adolescentes dos grandes escritores e escritoras. Pelo contrário, apenas questiono se leitores e leitoras menos experientes estão todos preparados para essas leituras.

Sendo, por vezes, o único espaço em que crianças e adolescentes acessam livros (e tendo a influência que vimos nos dados acima), a escola não poderia se ocupar inicialmente da formação de leitores, antes de se preocupar com a apresentação de obras clássicas? Não poderia inserir, em seu programa ou em seus projetos de leitura, livros contemporâneos ou obras selecionadas pelos próprios estudantes?

Há ainda um aspecto alarmante mostrado pela pesquisa: apenas 34% dos entrevistados (considerando todas as idades) declararam que tiveram influência para gostar de ler. Isso faz pensar se nós, adultos, estamos mesmo incentivando a leitura e como podemos incentivá-la se, em geral, também não fomos incentivados.

Mesmo que esse estímulo exista, se observarmos que os percentuais de leitores a partir dos 18 anos de idade só decrescem, podemos concluir que a nossa crítica aos mais jovens não se sustenta. Não só porque as primeiras faixas etárias apresentam as maiores porcentagens de leitores; também porque não é coerente os adultos repreenderem os mais jovens pela falta de leitura, quando são eles próprios os que menos leem.


Referência:

Instituto Pró-Livro; Itaú Cultural. Retratos da leitura no Brasil. 5. ed. São Paulo: IPL, 2020. Disponível em: https://www.prolivro.org.br/5a-edicao-de-retratos-da-leitura-no-brasil-2/a-pesquisa-5a-edicao/

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