01 de agosto de 2020

2 Comentários

Mulheres e homens: somos tão diferentes assim?

Recentemente li inúmeras notícias a respeito da sobrecarga de trabalho enfrentada pelas mulheres durante a pandemia. Não é novidade que as mulheres em geral se ocupam mais que os homens das tarefas domésticas e do cuidado da família, mas é provável que isso tenha se agravado neste período.

Essa situação resulta de um velho pensamento que relaciona as mulheres ao cuidado. Afinal, muitas pessoas (tanto homens quanto mulheres) acreditam que somos sensíveis, delicadas e maternais apenas por sermos mulheres.

Mas será mesmo que as mulheres nascem destinadas a realizar determinadas tarefas e os homens, a realizar outras? Será que homens e mulheres têm interesse inato por temas e atividades específicos?

É claro que ninguém nasce interessado em certo assunto, meninas não chegam ao mundo com habilidade para cuidar da casa e de crianças e meninos não são naturalmente mais talentosos em matemática nem mais entusiasmados com futebol. Tudo isso foi e continua sendo construído socialmente, na forma como educamos meninas e meninos: ensinamos que eles devem ser fortes e ousados; enquanto elas devem ser recatadas, delicadas, bem-comportadas.

Recentemente conheci um livro para crianças que trata exatamente desse tema. Com o título As mulheres e os homens (Boitempo, 2016), a obra informa, por meio de texto e ilustrações, como se constroem as diferenças não biológicas entre homens e mulheres.

Escrito por Equipo Plantel e ilustrado por Luci Gutiérrez, o livro foi publicado originalmente na Espanha, em 1978, e, mesmo que tenha se passado um tempo considerável desde seu lançamento, seu conteúdo continua válido, como os editores brasileiros observam ao final. Isso porque são reconhecidos os avanços rumo à igualdade de gênero, porém ainda existe enorme desigualdade entre mulheres e homens.

O livro, com sua função informativa, é um instrumento poderoso. Ele cumpre bem o papel de esclarecer às crianças (e também aos adultos) que homens e mulheres são iguais em quase todos os aspectos, exceto o biológico, e que existem mulheres e homens de todos os tipos, já que o sexo não define como se comportam, pensam e sentem.

E, de tanto ouvirem sempre a mesma ladainha e fazerem coisas tão diferentes, as meninas e os meninos vão se tornando diferentes de fato (p. 29).

Equipo Plantel e Luci Gutiérrez também chamam a atenção para as consequências da distinção social entre mulheres e homens. Quando são vistos como superiores, os homens passam a se sentir no direito de mandar em tudo, inclusive nas mulheres, em seus gostos, em suas escolhas, em seus pensamentos. Um dos resultados práticos desse processo ainda vemos com frequência: homens que se sentem proprietários das mulheres e livres para fazer com elas o que tiverem vontade: agredir, violentar e até matar.

Li um segundo livro que aborda a mesma temática, mas de maneira diferente: por meio de um texto ficcional. É o livro Faca sem ponta, galinha sem pé (Salamandra, 2009), escrito por Ruth Rocha e ilustrado por Suppa.

Publicado pela primeira vez em 1983, a obra narra a história dos irmãos Pedro e Joana, que vivem impasses bem comuns entre meninos e meninas.

É interessante o narrador chamar a atenção para o fato de os dois irmãos passarem por situações comuns, pois (ainda) não é nada raro se ouvir dizer que menina precisa ser delicada e não pode jogar futebol e que menino não pode chorar ou ser vaidoso.

— Que é isso, menina? Que comportamento! Menina tem que ser delicada, boazinha… (p. 7).

Os dois vivem então uma experiência que os transforma magicamente em Pêdra e Joana e assim podem sentir um pouco do que o outro experimenta com as proibições relacionados ao gênero.

Com essa história nos lembramos que os homens também sofrem essas proibições, mas não há como negar que estão em posição bem mais confortável do que as mulheres. Vemos ainda que concepções e práticas tendem a ser reproduzidas se não passam pelo crivo da reflexão, como Pêdra expressa nas seguintes palavras:

— É que todo mundo diz isso — disse Pêdra. — Que menina não joga futebol, que mulher é dentro de casa… (p. 19).

Como as crianças reais dificilmente passarão pela experiência mágica de Pedro e Joana, está claro que somente com informação e discussão conseguiremos interromper essa reprodução. Citando outra vez os editores do livro As mulheres e os homens, contamos apenas com a educação para vencer a desigualdade de gênero.


Não deixe de conhecer essas obras. Clique nos links a seguir:

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2 Comentários

  • Eliete Morais
    01 agosto, 2020

    Eri, adorei! É isso aí, vc sempre com a visão além 👏👏👏👏

    • Eriane Dantas
      Eriane Dantas
      03 agosto, 2020

      Obrigada, Eliete!😉

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