07 de julho de 2020

3 Comentários

[Resenha] Nó na garganta

Por Mirna Pinsky

  • Título Original: Nó na garganta
  • Gênero do Livro: Romance
  • Editora: Atual
  • Ano de Publicação: 2009
  • Número de Páginas: 88
Sinopse: Tânia tem 10 anos. Seus pais decidiram trocar a vida pobre e difícil da cidade grande por uma nova oportunidade no litoral, e ser caseiros na casa de dona Matilde. No novo ambiente, Tânia aprende e inventa novas brincadeiras, faz novos amigos e sofre muito preconceito pelo fato de ser negra. Ao mesmo tempo, vai nascendo dentro dela uma consciência até então desconhecida, uma vontade de mostrar às pessoas sua verdadeira personalidade.
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Aquela dor que sentia quando a chamavam de negra, daquele jeito, daquele jeito xingado, como se estivessem chamando ela de suja, de ladrona, de asquerosa, a amiga tinha percebido bem (p. 34).

Ganhei o livro Nó na garganta, meses atrás, de minha querida amiga Ana Luiza. Ana sabe o quanto aprecio textos literários destinados a crianças e jovens. Então preciso agradecer a ela a oportunidade de conhecer essa obra.

Com texto de Mirna Pinsky e ilustrações de Andréa Ramos, Nó na garganta conta a história de Tânia, uma menina negra de dez anos de idade que, como toda criança, quer se divertir, ter amigos, ser livre para fazer o que a deixa contente.

Tânia, porém, passa por aquela experiência cujos relatos continuamos a ver, aquela experiência dolorosa para quem a vive e vergonhosa para quem a provoca. Esse é um daqueles livros cuja atualidade, mesmo depois de 41 anos, não nos alegramos em constatar.

Nessa história, Tânia, a mãe e o pai se mudam da cidade grande para o litoral, em busca de um vida melhor. Os pais vão trabalhar como caseiros na casa de Dona Matilde, uma mulher rica com quem Tânia não consegue simpatizar.

Na pequena cidade litorânea, Tânia desbrava a natureza ao redor e quer fazer amizades, mas encontra resistência à sua presença, se atrapalha durante uma resposta na sala de aula e passa a ser motivo de chacota. Assim experimenta o racismo por meio da rejeição, das brincadeiras veladas ou mesmo de comentários bastante francos.

— Vai, escrava, vai comemorar o teu dia de glória! (p. 82)

Nesses momentos, Tânia sente um nó na garganta e deseja ser branca para receber o mesmo tratamento destinado às meninas brancas.

Às vezes fico louca de vontade de acordar branca, branca de olhos azuis, feito uma alemã, e ter pai e mãe brancos que valem tanto quanto o pai e a mãe dos outros. E não ter que esticar o cabelo até doer, para ele não ficar pixaim (p. 72).

Os pais de Tânia interiorizam o racismo e não têm consciência de que o sofrem — parecem que nem escutam quando são ofendidos. A mãe até resmunga contra dona Matilde, mas não passa disso. O pai tem muito medo de enfrentar os patrões.

A mãe sempre preocupada com o que os outros vão dizer dela e deles. A mãe sempre com medo dos outros e passando medo pra ela. O pai mais medroso ainda. […] (p. 54)

Tânia percebe tudo isso e se entristece. Porém, a partir dessa dor, vai se descobrindo e querendo se distanciar dos conceitos de seus pais, que, como ela nota (do seu jeito), são fruto de um longo processo de introjeção de valores e costumes do meio social.

É interessante como a autora, mesmo utilizando a narração em terceira pessoa, conseguiu dar voz aos sentimentos e pensamentos de Tânia, como se fosse ela mesma ali relatando-os. Com tão pouca idade, talvez a menina não pudesse elaborar essas conclusões sozinha.

Esse é um livro belíssimo, cheio de trechos pesados, capazes de nos deixar com um nó na garganta. Recomendo-o não só a jovens. Estou certa de que os adultos também vão torcer por Tânia, além de se revoltar e se emocionar com sua história.

Nó na garganta combina muito com este tempo que estamos vivendo, de forte luta contra o racismo. Acredito que a literatura, mesmo que não tenha (nem deva ter) essa intenção, pode suscitar reflexões sobre diversos temas. Acredito ainda que todos nós — crianças, jovens e adultos —, mesmo que nos afirmemos não racistas, precisamos refletir dia após dia sobre isso e lutar dia após dia contra o racismo enraizado na nossa sociedade.


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3 Comentários

  • Ana Luiza
    08 julho, 2020

    Uau! 41 anos? Cada vez mais necessário falar do racismo que faz parte da nossa história, que resiste disfarçadamente ou mesmo às claras. O racismo que nos habita. É como um troço preso na garganta. Que a gente precisa colocar pra fora!
    Obrigada, Eri!

    • Eriane Dantas
      Eriane Dantas
      14 julho, 2020

      Isso. 41 anos. E, se não fosse por algum trecho aqui e outro ali, nem daria para perceber que a obra não foi escrita agora.
      Muito bonito o que você falou, Ana: o racismo nos habita e precisamos colocá-lo pra fora.
      Um beijo.

      • Ana Luiza
        27 julho, 2020

        Obrigada, Eri!
        Um grande beijo.

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