12 de maio de 2020

2 Comentários

[Resenha] A conta-gotas

Por Ana Carolina Carvalho

  • Título Original: A conta-gotas
  • Gênero do Livro: Romance
  • Editora: Edições SM
  • Ano de Publicação: 2015
  • Número de Páginas: 117
Sinopse: A conta-gotas, pacientemente, com persistência — foi desse modo que Olívia conheceu sua mãe. Ela tinha nove meses quando Laura fugiu de casa, deixando-a com o pai e a avó. Na família não se falava da figura materna, não havia uma fotografia, nenhum registro do passado, nada. Para desvendar esse segredo, Olívia teve de se virar, recolhendo vestígios nos lugares mais improváveis: nos cochichos da avó, na ruga do pai, no espelho do quarto, na antiga cadeira de balanço, na samambaia da varanda... Trata-se de uma narrativa tocante sobre o trauma do abandono e as tentativas de resgate da própria história, em meio aos temores, fantasias, dúvidas e conquistas típicos da adolescência.
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Foi desse modo que conheci minha mãe. Em mínimas doses, e não como qualquer criança conhece a sua. Ou, pelo menos, como eu pensava que mãe e filha deveriam se conhecer: em uma convivência diária, intensa (p. 9-10).

O trecho acima é o resumo de como Olívia, a narradora-protagonista de A conta-gotas, conhece sua mãe, que partiu quando a menina ainda era bebê, deixando-a aos cuidados do pai.

Durante sua infância e adolescência, Olívia mantém o desejo de conhecer a mãe, mas esse é assunto proibido em sua casa e na casa da avó e a menina não vê sequer uma foto da mãe.

Olívia vai então recolhendo, aqui e ali, fragmentos da imagem e do jeito de ser de sua mãe, em seu próprio reflexo no espelho, nos objetos da casa, em conversas da avó com as amigas, nas expressões do pai e até no silêncio. Vai exercitando os ouvidos e a atenção para captar qualquer referência à mãe.

Queria ver a cena congelada por uma fresta, sem jogos de adivinha com os olhos dos outros, sem ter que recorrer à ruga do pai, às conversas da avó… Desejava conhecer a voz e o rosta minha mãe. Vê-la cara a cara (p. 13).

Mas chega um momento em que essa coleção de informações soltas não é mais suficiente e, por acaso, Olívia encontra a oportunidade de conhecer mais a mãe. Isso a deixa diante do conflito entre a possibilidade de realizar seu sonho e o medo da descoberta.

Dependendo do que eu soubesse, meu mundo seria outro, minha vida poderia mudar. Isso me dava medo, um medo enorme (p. 38).

É aí que ela constata que podem existir mais de uma versão de uma mesma história e que é preciso conhecê-las todas antes de qualquer julgamento. É aí que vão aparecendo os motivos da mãe para abandoná-la aos nove meses de idade.

Essa história é um relato sensível de uma menina que vai escrevendo sua história à medida que lhe é revelada a história da mãe, de quem tanta falta sente e de quem descobre que é tão parecida. Em sua busca paciente e, ao mesmo tempo, cheia de receios, Olívia se conhece também, conhece o pai e a avó e, em paralelo, lida com as dificuldades habituais da adolescência.

A conta-gotas foi escrito por Ana Carolina Carvalho, que, com esse trabalho, venceu a décima edição do Prêmio Barco a Vapor, em 2014. Ela produziu uma obra comovente, cheia de reflexões sobre como nos constituímos a pessoa que somos e a levamos conosco pelo resto da vida — tudo isto sem lições de moral.


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2 Comentários

  • Eliete Morais
    12 maio, 2020

    Que coisa linda, como as ausências pode nos ferir por toda uma vida. Obrigada, eu amei!

    • Eriane Dantas
      Eriane Dantas
      15 maio, 2020

      Podem mesmo.
      Eu que agradeço, Eliete. 🙂

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