21 de abril de 2020

2 Comentários

A menina e Brasília

Por Eriane Dantas

Há pouco mais de 21 anos uma menina chegou a Brasília com a mãe e a irmã, quando a cidade ainda não tinha quatro décadas. Era uma jovem tentando se firmar, acolhendo quem a buscava e dizendo que sempre cabia mais um.

A menina estranhou a vida na nova cidade, embora residisse fora do centro, que nem mesmo costumava visitar. Quis embora, voltar a uma terra onde era bem-vinda e semelhante a todo mundo. Aqui se sentia diferente, como se todos vissem em seu rosto que não pertencia ao lugar, a intrusa na casa dos outros.

Com o tempo, a menina se habituou e foi se sentindo em seu lar, à medida que soube se transformar em um pouco brasiliense, mas isso lhe custou renunciar à sua identidade piauiense.

A menina foi crescendo junto com Brasília e, ao se aproximar mais dela, foi conhecendo gentes de toda parte, gentes que se orgulhavam de suas origens. Então foi percebendo que Brasília é isso mesmo. Muitos dizem que não tem uma cara própria, um sotaque próprio; é aí, entretanto, que se encontra a sua característica mais bonita: a junção de pessoas tão distintas.

A menina sabe que esta terra de oportunidades, de decisões políticas, de distâncias e de siglas é também um lugar de grandes desigualdades, onde não existem só setores determinados para cada atividade; há muita diferença entre quem mora aqui e quem mora acolá ou quem nem tem onde morar.

Brasília não tem culpa, porém. Ela é reflexo do Brasil e não poderia deixar de refletir o grande problema nacional.

Hoje a menina cresceu, e BSB se tornou uma avó. Sessenta anos se passaram desde que JK inaugurou a cidade sonhada, a cidade moderna que prometia levar desenvolvimento para o interior do Brasil e criar no Planalto Central um centro urbano organizado que trouxesse qualidade de vida aos moradores.

Muita coisa fez Brasília se afastar daqueles planos, daqueles sonhos que alguém traçou para ela no século passado. Vez ou outra, ela se vê ferida, manchada e até envergonhada com o que fazem por aqui, com o que fazem com ela.

Apesar disso, ao menos em sua vida e na de sua família, a menina reconhece que Brasília cumpriu o seu papel e hoje pode dizer que se sente parte daqui, sem deixar de ser parte de lá.

A boa notícia é que este não é o fim da história. Há muito ainda para a menina e Brasília viverem. Quem sabe, mais amadurecida, nossa Capital resgate aquela utopia do seu nascimento e se torne uma cidade-modelo, que, em vez de refletir o Brasil, sirva de exemplo para qualquer canto do país?

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2 Comentários

  • Eliete Morais
    03 maio, 2020

    E aquela menina venceu, viveu e vive lindamente, guardando sempre os traços nordestinos, pois as nossas raízes sempre farão parte de nós. Orgulho imenso de você.

    • Eriane Dantas
      Eriane Dantas
      05 maio, 2020

      Obrigada, minha querida amiga! Agradeço seu apoio sempre. 😉

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