17 de dezembro de 2019

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[Resenha] Se os tubarões fossem homens

Por Bertolt Brecht

  • Título Original: If the sharks were men
  • Gênero do Livro: Conto
  • Editora: Olho de vidro
  • Ano de Publicação: 2018
  • Número de Páginas: 48
Sinopse: Em Se os tubarões fossem homens, Bertolt Brecht nos oferece uma história com pitadas de ironia e irreverência que nos faz pensar sobre a organização social do mundo, os valores éticos e as relações de poder.
Para Brecht, pensar é um dos maiores prazeres do bicho-homem.
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Hoje trago o livro Se os tubarões fossem homens, de Bertolt Brecht — um texto adaptado para crianças e jovens, mas recomendado a leitores de qualquer idade.

Se os tubarões fossem homens, certamente também fariam guerras entre si para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros e obrigariam os seus próprios peixinhos a combater nessa guerras (p. 26).

Bertolt Brecht (1898-1956) foi um pensador, dramaturgo, poeta e contista alemão que usava sua obra para expressar seu descontentamento com a realidade social, como vemos no texto de que falo aqui.

Escrito originalmente para adultos, Se os tubarões fossem homens ganhou ilustrações de Nelson Cruz na versão publicada no Brasil — ilustrações que nos chocam ao mostrar os tubarões assumindo as atitudes e as expressões mais assustadoras dos seres humanos.

A história começa com uma pergunta da filha pequena da dona da hospedaria ao senhor K:

‘Se os tubarões fossem homens, será que eles seriam mais gentis com os peixinhos?’ […] (p. 10).

O senhor K. responde que sim e apresenta à menina diversas situações nas quais os tubarões, se fossem homens, tratariam os peixinhos com bondade.

‘Se os tubarões fossem homens, mandariam construir para os peixinhos enormes gaiolas no mar, que seriam abastecidas com toda sorte de alimentos, tanto vegetais como animais (p. 10).

É óbvio que as hipóteses levantadas pelo senhor K. não passam de ironia. Os tubarões-homens se mostram cruéis, interesseiros, gananciosos, manipuladores e autoritários, como só os humanos podem ser.

O discurso do senhor K., portanto, é uma crítica à organização social; à obsessão dos seres humanos por dominar os demais (justamente os mais fracos); ao caráter alienante das instituições da nossa sociedade (escola, religião etc.).

Haveria também uma religião se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos só começa na barriga dos tubarões (p. 36).

Por essa temática tão séria, é possível que muitos adultos julguem esse livro inadequado para crianças. “Elas não entendem ironia”, eles poderão dizer. Mas, como venho defendendo aqui, as crianças são capazes de muito mais do que imaginamos.

As crianças (e os adultos) também podem contar com a ajuda das ilustrações, que fazem um contraponto interessante com o texto, revelando a real intenção do escritor, como se vê, por exemplo, nas imagens a seguir, junto das quais se lê:

[Os tubarões] cuidariam para que nas gaiolas sempre tivesse água fresca e adotariam todo tipo de medidas sanitárias (p. 15).

Além disso, mesmo que a criança não compreenda o sentido do texto de imediato, que mal pode fazer o contato com o livro? Aliás, como as obras literárias apresentam multissignificados, os jovens (e os experientes) leitores podem construir o seu próprio significado, e esse texto pode auxiliar a formar o pensamento crítico.

É claro que essa construção leva tempo e necessita de diversas leituras e releituras. Mas quem disse que as crianças não podem ler, reler e ler o livro outra vez? Não só elas. Nós, adultos, também precisaremos voltar ao texto inúmeras vezes para alcançar toda a riqueza guardada nessas 48 páginas. Há muito o que analisar e apreciar em cada um dos parágrafos e em cada uma das ilustrações. Há uma diversidade de maneiras de interpretar essa obra, e esta que apresento aqui é apenas uma delas.

Por outro lado, não me surpreendei se, a qualquer momento, vir a imagem da capa desse livro circulando pelas redes sociais com um aviso sobre seu perigo ou com uma tentativa de censurá-lo, pois ele mexe em estruturas que muita gente deseja preservar. Para isso, essa gente faz até as outras pessoas acreditarem que não podem questionar.

Enquanto escrevia sobre esse livro, veio à minha mente que não poderia haver melhor alegoria para criticar as relações sociais. Afinal, o que não falta por aí são tubarões se fingindo de amigos de peixinhos, fazendo-os acreditarem que também são tubarões. Com essa visão distorcida da realidade, os peixes aprendem a engolir os outros peixinhos e a nadar docilmente para dentro da boca dos tubarões.

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2 Comentários

  • Sarah
    13 setembro, 2020

    Estou conhecendo o site agora e resolvi deixar um comentário para agradecer sua disposição e empenho. Muito bom!

    • Eriane Dantas
      Eriane Dantas
      14 setembro, 2020

      Oi, Sarah!
      Muito obrigada! E passe por aqui sempre que quiser. 😉

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