27 de agosto de 2019

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O processo III

Planejar o que escrever

Qual o sonho? Escrever algo bom, que fosse melhor do que eu sou, e que justificasse minhas tribulações e indiscrições. Oferecer prova, por meio de palavras reordenadas, de que Deus existe (Smith, 2018).

Todo mundo já deve ter visto, em filmes ou séries, um escritor ou uma escritora planejando os menores detalhes de seu livro antes de começar a escrevê-lo e até enchendo a parede de casa com papéis coloridos indicando cada parte do projeto. Certa vez, ouvi uma escritora real dizer que gasta meses nesse planejamento e só inicia a criação do livro, de fato, quando todos os capítulos estão programados.

Gostaria de ser assim: de me dedicar a um planejamento sem pressa e colocar a história no papel apenas depois de estruturá-la de forma minuciosa. A verdade é que não sou tão paciente, como já escrevi aqui outra vez. Isso não quer dizer, porém, que eu não planeje.

O planejamento faz parte da maior parte das ações humanas. Na verdade, não consigo me lembrar agora de uma atividade que não necessite ser planejada. Fazemos planos todos os dias, mesmo antes de realizar as tarefas mais rotineiras, embora não façamos isso de modo consciente ou sistematizado. Ninguém anota em uma agenda cada momento do seu dia. No entanto, elabora na mente todos os passos seguintes a partir de seu despertar.

De igual forma, a produção literária não pode prescindir de um mínimo de preparação. Dificilmente alguém conseguirá elaborar um texto coerente e coeso, seja de que tipo for, se não souber o tema principal de que tratará, se não construir previamente uma ideia geral, se não tiver ao menos uma noção de por onde começar.

Em 2016, participei da Oficina de Criação Literária Online, com Marcelo Spalding, e o que mais chamou minha atenção foi justamente o tópico sobre o planejamento de uma história. Antes de escrever — Spalding ensina — é preciso criar algo como um universo ficcional, que dê coerência e sustentação ao enredo. É necessário pensar no local e na época em que a história se passará, nos personagens que a conduzirão.

Um exercício interessante realizado na oficina é responder a uma espécie de questionário sobre o texto que se pretende criar, no qual se detalham as características dos personagens (como nome, idade, nível social, sonhos, hobbies) e a própria história (cenas mais importantes, ponto de partida e de término, cenário, tempo histórico etc.). Apesar de esse exercício ser indicado, no curso, especificamente para a produção de contos, nada impede que seja empregado também no caso de narrativas mais longas. As respostas às perguntas não necessariamente aparecem no texto, mas ajudam a saber por onde seguir.

Meu planejamento é bem menos rígido do que o desses escritores que mencionei. Ao pensar em uma história, imagino seu percurso, os personagens e o ambiente no qual ela acontece, anoto as ideias principais de cada capítulo. Depois da oficina, passei a detalhar essas informações (adaptando-as conforme a situação), especialmente o perfil de cada personagem, como se fosse uma pessoa de verdade, que, portanto, possui forças, fraquezas e uma forma única de pensar e se comportar. Também imagino os conflitos que os personagens viverão e que serão o ponto central da narrativa.

Não vou dizer que essa é uma atividade simples nem que só começo a escrever quando todos esses pormenores estão determinados. Muitas vezes, eles vão se desenhando ou se alterando no caminho. Acredito que não há problema em mudar uma história (em parte ou totalmente) depois de iniciada. Acredito também que cada pessoa tem sua própria maneira de planejar sua escrita, e eu estou construindo a minha, colhendo sugestões como aquelas da oficina, inspirando-me no processo de outros escritores e aprendendo a compreender o meu jeito de escrever.

Diante de tantas opções de leitura disponíveis hoje em dia (sem falar nas mídias que concorrem com a literatura), creio que o início de uma história é a parte mais difícil de ser construída. Isso porque é a atratividade das primeiras linhas ou dos primeiros parágrafos que determinará se o leitor continuará a ler o livro ou o trocará por outro texto ou por uma série de TV.

Isso não significa que o fim da história seja o pedaço mais fácil de se escrever. Não é incomum nos decepcionarmos com finais — às vezes, por serem muito previsíveis; outra vezes, por serem infelizes demais, exatamente por tentarem não cair na obviedade. Reclamamos quando já sabemos, de antemão, que os mocinhos se casarão no último capítulo, mas também não ficamos satisfeitos quando o autor resolve separá-los no final.

Quanto a isso, Marcelo Spalding orienta a planejar o fim antes de se partir para a escrita em si. E eu entendo que ter o final em mente auxilia a construção da história e a manutenção da lógica durante todo o texto. Todavia, nem sempre é possível pensar em um desfecho de início, já que a trama e os personagens podem nos levar por rotas imprevistas. O próprio final deste texto, por exemplo, não pude decidi-lo até chegar a esta última linha.


Referência:

SMITH, Patti. Devoção. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

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2 Comentários

  • Eliete Morais
    27 agosto, 2019

    E ainda pensa que não sabe dar aulas, eu amei as dicas. E eu te acho mais que organizada. Vc é simplesmente incrível! Saudade!

    • Eriane Dantas
      Eriane Dantas
      03 setembro, 2019

      Obrigada, Eliete! Que bom que gostou das dicas. 😉
      Saudade de você também.
      Um beijo.

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