"4" Post(s) arquivados na Tag: minhas histórias

10 de setembro de 2018

0 Comentários

Cartas para Marilu (n° 2)

Por Eriane Dantas

Domingo, 23 de junho de 1985.


Querida Marilu,


Na fotografia que observo agora (a que acompanha esta carta), estamos apenas você e eu na saída da maternidade — eu com a aparência abatida; você dormindo envolta em um cobertor verde e amarelo. Seu pai insistiu em registrar o momento: disse que anos depois essa seria uma importante recordação para nós. Ele acertou na previsão: olhei para essa foto tantas vezes durante os últimos anos, querendo retornar àquele instante em que não tinha qualquer certeza sobre o futuro, mas previa uma vida diferente dali em diante.

Era jovem, inexperiente e tola. Imaginei que seria a melhor mãe, embora não tivesse prática alguma com crianças. Algo deveria despertar em mim, um tipo de sabedoria que viesse no pacote da maternidade. Também parecia fácil: bastava agir exatamente ao contrário da minha mãe. E, como não havia qualquer pessoa por perto para me indicar os caminhos, criei os meus próprios, contando apenas com minha intuição. Tracei planos para os dias, os meses e os anos seguintes.

Continue lendo

11 de agosto de 2018

0 Comentários

Cartas para Marilu (n° 1)

Por Eriane Dantas

Sexta-feira, 21 de junho de 1985.


Marilu,


Há exatos quinze anos, ser brasileiro significou fazer parte de uma nação gloriosa. Pelé, Gerson, Jairzinho e seus companheiros foram laureados heróis nacionais. E, com o cotidiano suspenso por um dia, colorido de verde e amarelo, a televisão uniu os brasileiros para acompanhar noventa minutos de encantamento, pela primeira vez em tempo real. Foi duro retornar à realidade no exterior daquela caixa de imagens e sons. A voz contida por quase uma década se converteu em um grito, cujo eco os brasileiros queriam fazer durar mais tempo.

Minha rotina também se alterou naquele dia, embora por uma razão diferente. Não assisti àquela partida final. Enquanto o país, envolvido com as cores da bandeira, mandava vibrações para que a seleção canarinho superasse a italiana, eu me preparava para conhecer você e torcia que nosso encontro não demorasse a acontecer. E tive uma certeza ao saber o resultado do jogo: sua chegada naquele dia não foi coincidência; significou que você traria tanto orgulho e tanta alegria para nossas vidas como a taça havia trazido para o Brasil.

Continue lendo

25 de julho de 2018

2 Comentários

O processo II

Ler mais para escrever melhor

Este é o poder decisivo de uma obra singular: o chamado à ação. E eu, repetidamente, sou tomada por uma arrogância orgulhosa que me leva a acreditar que posso atender a esse chamado (Smith, 2018).

Em abril de 2017, participei do curso Literatura infantil: o livro, o mercado e o escritor, com Tino Freitas, que me mostrou coisas das quais eu não tinha me tocado antes. A principal delas é a leitura do mercado. É o princípio básico de todo escritor, ensinado desde cedo em toda escola do país: ler mais para escrever melhor. Mas há outros elementos aí: ler para conhecer os temas abordados nas publicações contemporâneas e o estilo de quem escreve.

O mais relevante foi ouvir que precisamos ler livros infantis e juvenis para escrever livros infantis e juvenis. Essa é uma afirmação lógica? Definitivamente. Porém até aquele momento eu não tinha feito uma autoavaliação, não tinha percebido que não era a maior leitora da literatura voltada para aquele público, embora pretendesse escrever para ele. Minhas leituras de livros para crianças e jovens se resumiam àquelas da escola, do tempo em que atuei como professora. Então, foi como se Tino Freitas tivesse me sacudido e me despertado para o que deveria ser o primeiro passo do meu processo de escrita.

Continue lendo

16 de julho de 2018

0 Comentários

Selma

Por Eriane Dantas

Um ruído irritante, como se alguém desse a partida em um carro velho, tomou conta do quarto e a cada segundo se tornou mais e mais alto. Não ouvia mais o tique-taque do relógio de parede nem o latido do cão do vizinho. E eram duas horas da manhã. Àquela altura, já tinha rezado uma novena em favor dos meus parentes, principalmente do meu marido barulhento.

Conferi as horas novamente: passava das três. Se eu pegasse no sono naquele momento, dormiria por pouco menos de quatro horas. Da forma como meus olhos estavam, despertos como se eu tivesse tomado uma garrafa de café, sabia que passaria outra noite em claro. A solução foi encontrar algo para matar o tempo e chamar o sono.

Continue lendo


1 2 3
© 2019 Histórias em MimDesenvolvido com por