07 de março de 2020

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Pela metade

Por Eriane Dantas

Dia 8 de março, anos atrás. Às cinco horas da tarde, entre flores e bombons, mensagens rosadas e abraços, descobri que era uma mulher incompleta. Mas ninguém tinha me avisado. Aliás, durante todo o dia eu havia sido parabenizada por ser mulher. Quase nenhum homem (ou mulher) havia passado por mim sem me aconselhar a ser feliz naquele dia. E nenhum deles teve a ideia de me dizer que me faltava um pedaço, que eu era uma semimulher — metade mulher, metade algo que não sei dizer o que é. Todos me deixaram passar o dia com a impressão de pertencer completamente à categoria feminina.

Nesse dia, passamos as 24 horas com a certeza de ter sido uma grande vitória ter nascido Eva. Somos aclamadas como seres quase divinos, amantes incondicionais, fortes, bondosas e, não posso esquecer, delicadas. Nesse dia, inclusive os mais machistas reclamam amor e respeito a nosso favor. Lembram-se que nasceram de alguém parecida conosco. Sorriem e nos deixam orgulhosas. Até nos fazem esquecer os outros 364 dias. E, na volta para casa, tratam esposas, mães, filhas e irmãs como suas criadas, como suas propriedades, como suas inferiores.  

E o dia internacional da mulher se torna cada vez mais como o dia das mães ou o Natal, fazendo-nos exigir cumprimentos e presentes, como se o simples fato de termos um útero fosse motivo para comemorarmos a data, como se o dia existisse para realçar as qualidades “femininas”. Lá estamos nós, embaladas pelos gracejos, honradas em repetir que mulher é assim ou assado, como se não tivéssemos vindo do mesmo planeta que os homens, como se aguentássemos (ou devêssemos aguentar) fardos mais pesados que os deles.

Todo ano é assim. Soterradas pelas frases carinhosas, sequer lembramos pelo que (ou contra o que) as mulheres lutaram em décadas passadas. Parece até que tudo mudou, que não há mais pelo que lutar, que não há mais desigualdade. E eles dizem (e nós repetimos) que já alcançamos tanto que não devemos mais exigir qualquer coisa (não forcemos a barra!), que não há como negar as diferenças entre os sexos.

Não tenho a intenção de negar tais diferenças. Elas existem, sim. As diferenças biológicas. Todo o resto foi o que construímos e propagamos no decorrer da história e mantemos até agora. Afinal, nós mesmas estamos aí, a postos para dizer que somos tão diferentes deles, fortes, super-heroínas que realizam um milhão de atividades ao mesmo tempo, caindo na armadilha de buscar respeito provando superioridade, virando o jogo das diferenças a nosso favor — ou contra nós.

Não há mais espaço em nossa agenda para pensar na batalha pela igualdade (igualdade na diversidade). E aquelas mulheres que continuam lutando, que aproveitam esse dia para reclamar direitos iguais (como deveria ser), parecem inoportunas ou tão distantes de nós, como se ainda vivessem em outra década ou outro século. Será que não percebem que esse não é assunto para um dia tão colorido? Deixemos isso para o dia 9. Quem sabe, quando lá chegarmos, tenhamos desistido de lutar, convencidas de que não precisamos mudar mais nada — eles até nos desejaram felicidade.

Particularmente, tenho uma boa relação com um homem, que me enxerga como igual apesar de nossas diferenças, e conheço exemplos de outros que tratam suas parceiras dessa mesma forma. Porém estes ainda não são a maioria e mesmo eles, que aceitam e vivem a igualdade de gênero, carregam em si o ranço do patriarcado, o peso de uma educação sexista que divide meninas e meninos de acordo com papéis preestabelecidos (e com as cores de suas roupas). E, vez ou outra, dão voz a esses ensinamentos (como nós também fazemos). Porque, preciso chamar a atenção, não acredito que todos os homens que discriminam as mulheres o fazem de forma deliberada. Eles também foram e são vítimas de um sistema misógino. A muitos deles falta apenas refletir sobre a situação, sem cair no argumento raso de que homens e mulheres são diferentes e ponto.

Confesso que, por vezes, esqueço a causa feminista no dia a dia, por não sofrer tantos abusos quanto outras mulheres (ou talvez por acabar naturalizando aqueles que sofro). Mas então, no dia 8, quando muitas de nós estão aproveitando o clima festivo do dia e quando os abusadores escondem seus pensamentos atrás de buquês de rosas, quando eu menos esperaria o ataque (embora de uma fonte nada surpreendente), escutei aquilo que já não era novidade: ter um útero não é mesmo suficiente para comemorar a data. É preciso usá-lo. Para ser completa, uma mulher não pode ser lembrada apenas no dia 8 de março. Deve ser igualmente aplaudida no segundo domingo de maio.

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