03 de dezembro de 2019

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Cartas para Marilu (n° 9)

Domingo, 7 de julho de 1985.


Filha,


Quando saí de casa naquele dia, bati à porta da Vera. Seus olhos escuros, profundos e curiosos fixos em mim, me interrogando, só não eram mais indiscretos que o outro par de olhos, que me encarava com uma impaciência costumeira. Estes olhos me obrigavam a declarar, de uma vez, o que fazia ali às duas horas da manhã, não porque o dono deles quisesse saber realmente, mas porque queria voltar a se deitar.

Era impossível esclarecer a dúvida suspensa no espaço entre nós. Eu não tinha uma resposta razoável ou mesmo coragem de expressá-la, porém devia uma explicação aos dois. Foi aí que as lágrimas vieram em uma hora apropriada pela primeira vez. Vera veio em meu amparo, pedindo calma e me dispensando de explicações; arrumou o sofá, uma manta e uma almofada. Era ali onde eu passaria minha primeira noite longe de casa.

De lá, ouvi minha amiga e o esposo discutindo o que teria se passado comigo. Ela não sabia coisa alguma sobre brigas entre mim e Antônio, Vera frisava, ao que o homem respondia com mais perguntas que ela não podia responder. Apagaram as luzes, me deixando no escuro e no silêncio, condições ideais para uma reflexão. Estava mesmo agindo certo? Deveria ter permanecido na casa para ficar ao seu lado? Que tipo de mãe era eu?

De manhã, ao ouvir minha história, Vera me dirigiu um olhar sentenciador, o que me fez questionar minha decisão outra vez. Seu tom de voz indicou, antes de tudo, uma queixa ao meu sofrimento mudo, à minha falta de confiança em nossa amizade. Ela, porém, guardiã de uma bondade não concedida a mais ninguém, me acompanhou na busca de um trabalho.

Dormi mais uma noite em sua casa, sem perspectivas de um lugar para morar ou de um emprego, já que os afazeres domésticos tinham sido meu único ofício por todos aqueles anos. Mesmo bem-recebida por Vera, não era necessária grande sagacidade para perceber que alongar minha presença ali traria consequências negativas para ela, que, mesmo sendo chamada de dona da casa, não mandava em coisa alguma naquele espaço.

De manhã, minhas suspeitas se confirmaram: o marido havia baixado a proibição de me seguir na andança pela cidade, pois não me considerava uma boa influência para a esposa. E eu entendi que minha suposta infidelidade tinha corrido por ouvidos e bocas da vizinhança e talvez tivesse alcançado nossa família, nossos parentes distantes, os moradores do outro lado da cidade.

Parti em uma nova procura, com as economias de Vera em mãos, e, por sorte ou milagre, encontrei trabalho como faxineira num hotel ali perto e um quarto de pensão onde dormir.

De volta à casa de Vera, cheguei no exato momento em que você e Antônio também chegavam. Você, que segurava a mão de seu pai, correu em minha direção e me perguntou por que eu tinha estado fora. Depois me puxou rumo à porta. Antônio a afastou, dizendo que eu sairia em uma longa viagem. Nem pude me explicar, nem pude dar um último beijo em você.

Agarrada à minha mala, a única coisa que eu ainda possuía, me despedi de Vera. Segui para a pensão, com uma insistente incerteza sobre o que fazia. Quando entrei no quarto, não segurei as lágrimas e pensei tanto no assunto que considerei voltar para casa. Não conseguiria ficar longe de você, ainda mais sabendo que acabaria se voltando contra mim.

Horas depois, entretanto, concluí que me afastar era o melhor. Em meu estado de desânimo, eu não seria uma boa companhia para uma criança. Você ficaria bem com seu pai, que a amava mais do que a qualquer pessoa, e eu lutaria para retornar à sua vida. Um dia, mesmo que demorasse, eu poderia lhe explicar por que havia deixado a casa, e você me entenderia.


Com amor,

Neusa

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