30 de novembro de 2019

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A mulher das plantas

Por Eriane Dantas

A imagem mostra uma pintura de uma mulher colhendo flores em um jardim.

A mãe de uma amiga de uma amiga era obsessiva por plantas de todos os tipos, mas sempre preferiu aquelas que floriam. Então enchia a frente, os lados e os fundos da casa com as mais variadas espécies. Mal sobrava espaço para caminhar do portão até a porta de casa.

O marido dizia que ela ganharia muito mais se trocasse cada uma daquelas plantas por uma que desse algo comestível. Ninguém poderia comer flor, ele repetia. Aliás, ele se enganava, pois existiam sim flores comestíveis. Não naquele jardim, é verdade. E, mesmo assim, aquele homem certamente não aprovaria uma comida tão exótica. Queria ver o terreno tomado de pés de manga, de goiaba, de mamão, de acerola e talvez até de feijão. Aquelas flores todas não serviam para nada.

A mulher, porém, fingia não ouvir as reclamações do marido. Gostava tanto daquelas plantinhas, como se fossem uma das suas filhas. Não tinham nascido do seu ventre — e nem seria possível, que maluquice! —, mas não fazia diferença. Ela passava as tardes aguando e podando as plantas, trocando os jarros, colocando mais adubo, mudando de lugar aquelas que reclamavam do sol ou da sombra.

Mas não era só isso. Ela também tinha a estranha mania de conversar com as rosas, as violetas, os crisântemos, as margaridas, as damas da noite, as begônias, as flores de maio, os amores-perfeitos, as hortênsias, os gerânios, as gardênias, os jacintos, os rabos-de-gato, as perpétuas e as verbenas.

Até aí não é nada de mais. Quem de nós nunca falou com algum ser incapaz de nos compreender? Conheci uma moça que conversava até com as paredes da casa. O problema é que a mulher das plantas acreditava, lá no fundo, que suas filhas adotivas respondiam a suas perguntas.

Não. Seu caso não era de internação. Ela sabia que os vegetais não tinham a habilidade da fala. Captava a resposta no jeito das plantas se comportarem: cresciam ou floresciam mais rápido sempre que eram mimadas e ficavam meio murchas quando não tinham seu papo diário.

Um dia, porém, a grana ficou curta na casa e não dava mais para comprar as mudas que a mulher das plantas costumava adquirir quase toda semana em um viveiro do bairro. Ela admirava as plantas de todas as casas por onde passava, mas não teria coragem de bater às portas e pedir a doação de uma mudinha.

Essa abstinência de novos espécimes já causava efeitos em seu sono e em sua relação com a família. Passava horas caminhando pela rua e conversando com as plantas dos vizinhos e até com as selvagens que cresciam no mato; sonhava com flores de todas as cores e formas. Também espionava a moradora da casa da frente, tão compulsiva quanto ela por plantações. Mas percebeu, por si só, que sua saúde mental não ia bem no dia em que quase assaltou essa mulher, que chegava com novos jarros de planta.

Resolveu dar um basta na situação. Não podia continuar desse jeito, pois o marido já ameaçava doar metade daquela floresta se a mulher não voltasse ao normal. Ela pegou então a filha mais nova pela mão, e as duas entraram num ônibus rumo ao centro da cidade.

Lá pelo meio do caminho ela se levantou e puxou a filha para descer do ônibus. Caminharam por duzentos metros e avistaram um portão alto. Quando passaram por ele, a menina viu os túmulos e esbugalhou os olhos.

— Mãe, o que a gente veio fazer aqui?

— Vai ali, filha, e pega um galho daquela planta pra mim. As almas não vão se importar de dar só uma mudinha pra gente.

A mulher das plantas se escondeu atrás de uma árvore frondosa, enquanto a menina, obediente, se dirigiu à planta que a mãe apontara, próxima a jazigos de mármore parecidos com miniaturas de casas, enfeitados com flores e velas e identificados com fotos dos mortos. Ela esticou a mão até a planta com os olhos fechados e, assim que tocou um galho com a ponta dos dedos, uma voz masculina falou ao longe e foi se aproximando:

— Ei, menina! O que tu tá fazendo aí? Não pode bulir nas plantas daqui.

A mãe então apareceu.

— Então tu tá aqui, menina? — ela disse. — Andei te procurando pelo cemitério todo. E o que tá fazendo? Eu não falei pra não mexer em nada. Desculpe, senhor, essa menina só vive aprontando. A gente já tá indo embora.

A filha ficou olhando para o rosto da mãe, com cara de interrogação, até o homem se afastar. Já ia abrindo a boca para perguntar o que estava acontecendo, quando a mulher das plantas cochichou:

— Fica vigiando aí que eu vou pegar a muda.

Em um segundo arrancou um galho pequeno da planta, enfiou-o na bolsa, agarrou a mão da filha e se dirigiu à saída. Passaram pelo mesmo senhor, que olhou para a menina com uma expressão desconfiada.

— Até logo, senhor — a mãe cumprimentou o homem. — Em casa vou ter uma conversinha com ela pra nunca mais mexer nas plantas do cemitério.

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