13 de agosto de 2019

6 Comentários

[Resenha] À sombra desta mangueira

Por Paulo Freire

  • Título Original: À sombra desta mangueira
  • Gênero do Livro: Ensaio
  • Editora: Paz & Terra
  • Ano de Publicação: 2013
  • Número de Páginas: 251
Sinopse: Uma obra fundamental não apenas para os profissionais da educação que sabem que "o domínio técnico é tão importante para o profissional quanto a compreensão política o é para o cidadão", e que ambas as missões de formação cabem ao educador; mas também àqueles que acreditam num mundo mais justo, onde a formação técnica, científica e profissional é tão importante quanto o sonho e a utopia.
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A libertação é possibilidade; não sina, nem destino, nem fado” (p. 50).

Hoje trago um livro de um dos autores brasileiros mais conhecidos no mundo e um dos maiores educadores de todos os tempos; um homem repudiado em seu próprio país, o país que ele tanto amava e queria ver transformado.

Publicado pela primeira vez em 1995, À sombra desta mangueira talvez seja um livro pouco conhecido de Paulo Freire, em que o autor discute de forma bastante pessoal temas como educação, política, avanço da tecnologia e exílio; faz críticas à esquerda e aos antigos progressistas.

Paulo Freire nasceu no Recife, Pernambuco, em 1921 e, ainda na infância, viu crescer em si mesmo a vontade de melhorar a educação do povo, de tornar a sociedade menos desigual e mais justa.

Formou-se em direito, mas se tornou professor e assumiu também cargos de direção no Serviço Social da Indústria (SESI) e nas redes de ensino do Recife e de Pernambuco. Engajou-se nos movimentos de educação popular no início dos anos de 1960 e, em 1963, realizou um trabalho de alfabetização de adultos em Angicos, Rio Grande do Norte, que o tornou conhecido no Brasil. Foi convidado pelo governo federal da época, chefiado por João Goulart, a implantar um plano de alfabetização nacional, que não chegou a ser concretizado devido ao golpe militar.

Com a instauração da ditadura militar, Freire partiu para o exílio e passou por diversos países (Bolívia, Chile, Estados Unidos, Suíça), nos quais trabalhou na área da educação. A serviço do Conselho Mundial de Igrejas visitou países da África, da Ásia, da Oceania e da América (com exceção do Brasil) e os ajudou a criarem seus planos de educação.

Retornou ao Brasil em 1980, após a publicação da Lei da Anistia e, em 1989, assumiu o cargo de secretário de educação do Município de São Paulo, no governo de Luiza Erundina. Somente em 2012 (quinze anos após sua morte), recebeu o título de patrono da educação brasileira, que agora querem retirar dele.

Em À sombra desta mangueira, Paulo Freire revela seu amor por sua terra (sua cidade, seu estado, seu país), mas não um amor que não enxerga as dificuldades, as desigualdades, a complexidade da nossa sociedade; a miséria, a fome do povo. Mesmo com seu amor por esta terra, ele sabia que havia muito a ser transformado e não só sonhava como lutava por essa transformação.

[…] minha terra não é apenas o contorno que tenho definido, claro, na memória e que posso reproduzir de olhos fechados, mas é sobretudo um espaço temporalizado, geografia, história, cultura. Minha terra é dor de milhões, é fome, é miséria, é esperança também de milhões igualmente famintos de justiça (p. 42).

A sombra da mangueira que dá nome ao livro, como Freire mesmo explica no primeiro capítulo, remete à sua infância, quando embaixo de árvores em sua casa no Recife, estudou, conversou com o irmão, fez descobertas, fez suas primeiras leituras de mundo e da palavra. A sombra da mangueira então é um lugar de reflexão, de aprendizagem, de olhar para suas origens, de pensar na transformação.

Para ele, essa visita à criança que fomos nos permite ver de forma diferente de como antes víamos, de maneira mais crítica, menos ingênua. Para mim, essa volta às nossas origens também nos permite repensar nossa postura de hoje.

Sou teresinense, piauiense, nordestina, brasileira. Sou fruto da classe trabalhadora. Então como posso aceitar que riam da minha terra ou dos meus conterrâneos? Como posso não desejar que todos os piauienses, nordestinos, brasileiros tenham comida todo dia e acesso a educação, saúde, cultura e lazer? Como posso não sonhar com o dia em que não haja tanta desigualdade? Como posso não me colocar ao lado dos meus na luta?

Existem pessoas que ascenderam socialmente nos últimos anos e parecem evitar qualquer identificação com aquelas que não tiveram a mesma sorte. Para se manterem em sua nova posição, privilegiados e até como exemplos da falsa meritocracia, parecem não desejar que as condições de vida dos demais melhorem. E não digo que isso seja um desejo consciente. Talvez seja a concretização daquilo que Freire disse sobre o oprimido que sonha em se tornar o opressor. 

Há muito tempo, a classe média em geral vem criticando os mais pobres, acusando-os de votarem pensando unicamente em seus interesses pessoais (interesses legítimos, na minha opinião — trabalhar, sobreviver e alimentar os filhos), enquanto ela mesma escolhe seus representantes políticos por razões particulares, as quais me parecem muito menos compreensíveis (como, por exemplo, impedir o avanço imaginário do comunismo). Há muito tempo, a classe média em geral tem se aliado aos poderosos e lutado contra os mais pobres, sem perceber que é apenas usada pelos ricos em sua gana de ficarem ainda mais ricos.

Por isso, seria necessário que todos nós nos fizéssemos a pergunta que Paulo Freire sugere: “com quem estou? Contra que e contra quem, portanto, estou?” (p. 43).

Acho um tanto incoerente o povo lutar contra o próprio povo, o povo dizer que quer que lhe tirem tudo em nome de Deus, um nordestino rir de uma piada da qual ele é o personagem principal, uma mulher estar ao lado de quem não considera sua igualdade em relação aos homens.

Há os que dizem que vivemos uma polarização e que é tempo de unir os dois lados em prol do país. “Não dá para torcer contra o Brasil”, defendem eles. Para ser sincera, não desejo essa união, prefiro estar no outro polo, porque sei que quem hoje está no poder não tem intenção de transformar o país, aliás, tem a intenção de transformar o país em benefício dos seus e não do povo. Então como posso me colocar ao lado de tais pessoas?

Paulo Freire defende a unidade na diversidade, ou seja, a união dos diferentes conciliáveis (porque a união dos diferentes antagônicos seria impossível), aqueles que lutam contra um inimigo comum. Em sua opinião, a formação de grupos separados (de feministas, de negros, de indígenas etc.) só diminui nossa força e acaba nos jogando uns contra os outros.

Ao falar em educação, Paulo Freire reitera aquilo que os defensores da escola sem partido parecem não compreender (ou talvez compreendam bem): que não é possível separar o conhecimento técnico da compreensão política da realidade (separar a leitura da palavra e a leitura do mundo). O ato de ensinar não pode ser limitado à transferência de conteúdos, pois envolve o entendimento da razão de ser das coisas, a pesquisa, a reflexão, o desenvolvimento da curiosidade epistemológica.

Servir à ordem dominante é o que fazem hoje intelectuais ontem progressistas que, negando à prática educativa qualquer intenção desveladora, a reduzem à pura transferência de conteúdos considerados como suficientes para a vida feliz das gentes. E a vida feliz é aquela que se vive na adaptação ao mundo sem raivas, sem protestos, sem sonhos de transformação (p. 43-44).

Como Freire, acredito que a professora ou o professor não pode ensinar os conteúdos como se os depositasse nas cabeças dos alunos. É necessário relacionar o conhecimento ao contexto dos educandos, discutir com eles a realidade que os cerca e as diferenças entre os seres humanos, estimulá-los a desenvolver o pensamento crítico.

Enquanto lê este texto pode haver alguém se perguntando: “se Paulo Freire é tudo isso, por que a educação no Brasil é tão ruim?”. A educação no Brasil talvez nunca tenha sido boa, de fato, mas há uma série de fatores a serem considerados e não de forma isolada. Quem trabalha na educação sabe que essa é uma área complexa que não depende apenas de recursos financeiros ou materiais, tampouco da ação da professora ou do professor. Ela depende de tudo isso e ainda da vontade política dos governantes, das condições socioeconômicas dos educandos e da comunidade na qual estão inseridos, do trabalho das equipes gestora e pedagógica, da participação dos pais e da sociedade etc. 

Não é só com recursos financeiros que a educação avançará, mas cortá-los não ajuda em coisa alguma. A professora e o professor sozinhos não mudam a educação, porém desvalorizá-los, questionar sua importância não traz qualquer benefício. 

Além disso, há dois erros na relação que se costuma fazer entre a má qualidade da educação brasileira e o trabalho de Paulo Freire. O primeiro é que a teoria e o método de Paulo Freire não são aplicados em massa nas escolas. Não me recordo de ter ouvido, uma vez sequer, o nome do educador ser pronunciado em reunião de planejamento pedagógico ou uma professora defendendo a aplicação do método criado por ele. Pela minha experiência, posso dizer que Paulo Freire quase não é lembrado e, se sua teoria e sua pedagogia são usadas, isso se deve à iniciativa particular das professoras. Mesmo na universidade, penso que pouco ouvi falar sobre ele.

O segundo erro é que uma única pessoa não pode ser responsável pelo fracasso ou pelo sucesso da educação. Como então a insuficiência dos nossos resultados educacionais pode ser atribuída a Paulo Freire? Como podem os críticos pautar sua rejeição a ele em tal argumento?

Nunca entendi o porquê do ódio a um homem que defendia uma teoria libertadora, via a educação como tomada de consciência, sonhava com o fim da desigualdade e tinha esperança na transformação do mundo. Sinto tristeza toda vez que escuto comentários desrespeitosos sobre ele (como se fossem dirigidos a mim).

Perguntei a duas amigas suas opiniões sobre a razão desse ódio, e elas me responderam o que eu ingenuamente não via: o ódio existe exatamente porque a classe dominante não deseja a tomada de consciência, o fim da desigualdade ou a transformação do mundo.

Essa transformação da realidade é um tema que perpassa todo o livro. Paulo Freire nos recorda que a história não é um ente superior independente de nossa ação e de nossa vontade. Somos nós que fazemos a história, pois, diferentemente dos outros animais, não precisamos nos adaptar, somos seres de decisão, intervimos no mundo. Por isso, não se sustenta a tese de que as coisas são assim porque tinham que ser, porque não há outra saída. Não dá para culpar o destino. Assim Freire proclama a esperança na mudança, mas não uma esperança de quem se senta e espera que as coisas se transformem por si sós. A mudança não acontece com a permissão ou por bondade das classes dominantes e sim com muita luta.

Paulo Freire também discute a fé (e vale mencionar que era cristão), especialmente o uso que se faz dela para que os mais pobres se conformem com sua situação, como se fosse a vontade de Deus. E critica aqueles que combinam fé e discriminação.

Não entendo, jamais entendi, desde quando ainda criança, como se torna possível conciliar a fé no Cristo e a discriminação racial, de sexo, de classe, de nação (p. 150).

Se estivesse vivo, ele estaria estarrecido hoje. Compartilho essa dúvida com ele, porque não concebo que seguidores de Jesus discriminem outro ser humano, não importa por que motivo. Dizem amá-lo e conhecem seus ensinamentos de cor, porém muitos deles não são capazes de colocá-los em prática fora da igreja, nem de cumprir a parte de amar o próximo como a si mesmos. Será que é tão difícil assim enxergarem a incoerência? Afinal, do lado de quem Cristo estaria agora? Pelo que entendi, Jesus vivia cercado dos oprimidos, daqueles em quem a sociedade jogava pedras. Na bíblia que tenho aqui, leio que Cristo foi torturado e não que exaltou torturadores; que perdoava até mesmo ladrões e não que comemorava a morte deles. Na minha visão (mas essa é só a minha visão mesmo), não combina marchar para Jesus e, ao mesmo tempo, dizer que só as maiorias têm direitos, pois Jesus nunca fez parte dessas tais maiorias.

Pode ser que alguém esteja aí pensando que este blog está ficando “muito político” (e talvez nem tenha chegado até o final deste texto). Espero que perceba que este espaço nunca foi diferente. Em tudo o que já escrevi até aqui, deixei clara minha posição política e ideológica. Como Freire mesmo diz, não somos neutros. A literatura, como as demais áreas, está carregada de nossa visão de mundo, seja quando escrevemos, seja quando interpretamos aquilo que lemos. E, se talvez a minha opinião política tenha ficado mais explícita de uns textos para cá, é porque vivemos um tempo que não nos permite mais silenciar e esta é, no momento, minha forma de lutar.


Referência:

GADOTTI, Moacir (Org.). Paulo Freire: uma biobibliografia. São Paulo: Cortez, 1996. Disponível em: <http://www.acervo.paulofreire.org:8080/jspui/bitstream/7891/3078/1/FPF_PTPF_12_069.pdf>. Acesso em: 11 ago. 2019.

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Deixe seu comentário

6 Comentários

  • ellen
    22 agosto, 2019

    Como sempre você arrasa nas palavras. Li o texto avidamente e achei muito apropriado e contextualizado.
    Sua escrita inspira-me a pensar e compartilhar toda a idéia.
    Continue nos brindando com palavras atuais, pertinentes e inteligentes.
    bravo!!!!!!!!

    • Eriane Dantas
      Eriane Dantas
      23 agosto, 2019

      Muito obrigada, Ellen! Que bom ver você de novo por aqui.
      Fiquei feliz em saber o que você achou do texto.
      Vamos compartilhar o pensamento mais importante que esse livro nos deixou: um mundo mais justo é sim possível.
      Um abraço.

  • Eliete
    20 agosto, 2019

    Eri,
    Difícil não ir às lágrimas, depois de ler o seu texto pelo terceira vez, nas duas vezes que li fiquei tão passada que não tinha palavras para expressar. Hj não é diferente, mas resolvi deixar ao menos o minha indignação da atual situação que vivemos e ter mulheres forte assim como vc é que faz que o combate seja mais fácil, pois de mãos dadas é mais fácil que sozinhas.
    Paulo Freire nos deu a liberdade de pensamento e coragem para lutar.
    Vamos que vamos. Obrigada pelas inspiradoras palavras

    • Eriane Dantas
      Eriane Dantas
      23 agosto, 2019

      Eliete,
      A situação do nosso país tem sido mesmo difícil e tem nos deixado adoecidas, como falamos um dia desses. Mas, assim como você mesma escreveu, de mãos dadas é mais fácil, porque juntas somos mais fortes. Essa é inclusive a recomendação de Paulo Freire no livro.
      Saiba que você é uma inspiração para mim, para todos nós que testemunhamos sua doação aos outros, seu empenho em ajudar seus familiares, seus amigos e inclusive pessoas que você nem conhece.
      Vamos lá, continuemos de mãos dadas, minha amiga e companheira de luta!
      Beijo.

  • Ana Luiza
    14 agosto, 2019

    Eri,
    Tô arrepiada!!! Obrigada por esse texto belíssimo, forte, certeiro, justo, comprometido com sua posição política e ideológica.
    Que orgulho ser parceira dessa mulher, brasileira, nordestina, piauiense, profissional a serviço da educação, filha da classe trabalhadora que tem certeza do lugar que quer ocupar!

    • Eriane Dantas
      Eriane Dantas
      20 agosto, 2019

      Ana,
      Agradeço seu comentário tão emocionante e sua presença assídua aqui neste espaço.
      Você também é tudo isso: uma mulher que não se esquece de suas origens e que reconhece o impacto que seu trabalho tem na educação de milhares de brasileiros e brasileiras. Sou muito grata por sua parceria.
      Estamos juntas, querida amiga e companheira!
      Beijos.

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