05 de julho de 2018

4 Comentários

[Resenha] Deslumbres e assombros

Por Lucas M. Carvalho

  • Título Original: Deslumbres e assombros
  • Gênero do Livro: Romance
  • Editora: Edições SM
  • Ano de Publicação: 2017
  • Número de Páginas: 224
Sinopse: Narrativa do gênero fantasia que conta as aventuras de Naia, uma menina curiosa e atrevida por reinos inimagináveis. No Vilarejo, onde ela mora com os pais, tudo é agradável e perfeito, mas nenhum habitante se dá conta do privilégio que é viver lá por desconhecer o que há fora dele. Ou seja, o único mundo que conhecem é aquele, não havendo base de comparação. Naia, porém, é uma leitora e, como tal, um dia se questionará sobre o desconhecido. Movida por essa curiosidade, ela decidirá ultrapassar sozinha a fronteira de seu mundo, iniciando uma jornada fabulosa, que redefinirá as medidas do tempo e do espaço.

Costuma-se dizer que, para enxergar as coisas mais belas, é necessário um esforço fatigante, mesmo que elas estejam diante de nosso nariz (p. 73).

Hoje quero falar de um livro destinado a crianças e jovens — e por que não a adultos? Preciso confessar que gosto cada vez mais de apreciar trabalhos como este, com um valor estético por vezes negligenciado nas obras para crianças e jovens, devido à desvalorização da literatura para esse público.

Terceiro livro de Lucas M. Carvalho, Deslumbres e assombros foi o vencedor do 12° Prêmio Barco a Vapor, em 2016. O primeiro livro do autor, O espetáculo de Grimnlaud (2009), foi publicado quando ele tinha apenas dezesseis anos. Em seguida, Lucas M. Carvalho publicou Abaixo das nuvens (2012).

Deslumbres e assombros é um livro com ilustrações. Isso quer dizer que, apesar da relevância dos desenhos, o texto é independente das imagens. As ilustrações foram feitas por Rafa Anton, ilustrador espanhol que vive no Brasil. Entre seus trabalhos, destaca-se o livro A incrível história do homem que não sonhava, publicado em 2014, do qual é autor e ilustrador.

Embora seja um livro infantil, Deslumbres e assombros é relativamente extenso e não possui a linguagem simplificada que se costuma associar à literatura voltada a esse público. Ao contrário, o autor aposta na capacidade de compreensão das crianças, com construções e reflexões complexas. E não seria essa mesma a função do livro (seja para crianças, jovens ou adultos): levar o leitor para além de seu mundo?

O livro conta a história de Naia, uma pequena habitante de um vilarejo calmo chamado simplesmente de Vilarejo, já que seus moradores não conhecem outro e não veem a necessidade de diferenciá-lo dos demais. Ninguém ali jamais deixou o Vilarejo, porque um tronco empata a saída e principalmente porque eles sequer consideram sair dali, como se fosse melhor não alterar um costume consolidado.

Isso nos leva a pensar em quantas vezes não preferimos nos acostumar à nossa condição, embora possam existir melhores, apenas por medo ou preguiça de descobrir o que há em outros lugares, apenas por falta de coragem de lutar por mudanças (ou só para evitar a fadiga, como Jaiminho diria).

Diante da inação dos outros moradores, cabe então à curiosa e corajosa Naia questionar a razão daquele isolamento. Por que ninguém saía dali? O que havia depois daquele tronco? Porém, sem uma explicação satisfatória e com o interesse ainda mais aguçado pela proibição, ela parte sozinha em exploração fora do Vilarejo.

Nessa viagem, Naia adentra um mundo novo, com concepções diferentes de tempo, de espaço e de formas. Conhece culturas distintas e seres estranhos (alguns sábios e outros bobões; uns assustadores e outros, nem tanto) e usa de sua esperteza, sua teimosia e seu atrevimento para escapar de situações perigosas ou apenas para se beneficiar. Além disso, aprimora a habilidade da argumentação e a inteligência e adquire tanto conhecimento que se torna ainda mais curiosa.

Dos argumentos que a gaviã havia utilizado para defender seu lado, nenhum deles foi mais forte que a indolente, impertinente e irritante teimosia de Naia. Essa jogada poupou-lhe muitas léguas de caminhada (palmas para sua astúcia), pois bem se sabe que, em uma discussão, estar certo é a última coisa que leva alguém a sair vitorioso (p. 181-182).

O ponto alto (o mais alto) talvez seja o próprio narrador, que, com bom humor, convida o leitor a ser mais um personagem da trama. O narrador brinca e engana o leitor (me enganou também), intromete-se na história, mas também discute seu papel, suas escolhas e a construção da narrativa.

Pelas qualidades citadas, indico Deslumbres e assombros não só a crianças e jovens. Também serão atraídos por essa bela obra os adultos capazes de ler como crianças — como aquelas crianças que foram um dia ou imaginam ainda ser, fazendo referência a Hunt (2010), ou ainda aquelas que desejariam ter sido.

Referência: HUNT, Peter. Crítica, teoria e literatura infantil. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

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4 Comentários

  • Rebeca Maria
    28 agosto, 2018

    Eu ameiiii o livro!! Super legal e emocionante! Atrai e deixa o leitor muito confortável durante a história! Amo amo amo!! Super recomendo! <3

    • Eriane Dantas
      Eriane Dantas
      03 setembro, 2018

      Também achei isso, Rebeca. O narrador parece estar conversando com a gente, né?
      Obrigada pela visita! Você está convidada a voltar por aqui sempre que quiser. 🙂

  • ellen
    10 julho, 2018

    olá….

    Apreciei deveras, o trecho que destacas […] estar certo é a última coisa que leva alguém a sair vitorioso.
    Reflexão pra hoje, pra semana, para o ano ,e para a vida.

    Bjs.

    • Eriane Dantas
      Eriane Dantas
      10 julho, 2018

      Olá, Ellen!
      Esse livro está cheio de reflexões.

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